Às mulheres de Atibaia: Ísis Gonçalves
Juliana Gobbe
Da tragédia grega antiga, certamente Medeia de Eurípedes, apresentada nas Grandes Dionísias em 431 a.C, é a trama que vem ao longo dos séculos arejando-se e, em horizonte dialético tracejando caminhos e interesse renovado por parte dos movimentos feministas por uma das figuras femininas mais interessantes da dramaturgia universal. Medeia é antes de tudo, um chamado para as discussões em torno do corpo transformado em manifesto. Sua rejeição ao conformismo tradicional e sua rebeldia ao indigesto tratamento dado a ela, a fez feiticeira, bruxa, como no mito de Circe ao transformar homens em animais. E de repente, a constatação é óbvia: a história do mundo é escrita pelas Medeias de ontem e hoje que não se limitam a vivenciar o que o patriarcado dita, mas sim, o que o desejo transborda. Nossa mulher exaltada de hoje é também Medeia ao passar pela vida adoravelmente insubordinada.
Conheci Ísis Gonçalves no chão da escola pública, o que já revela seu amor à educação e à arte em condições adversas como as da conjuntura brasileira em que ao povo quase tudo é negado. Criativa e inquieta, sempre esteve à frente dos grandes eventos culturais em Atibaia, dentro e fora da escola.
Entre encenações, sustenidos e bemóis sua presença se se fez indispensável, pois, também na arte de juntar pessoas para produzir beleza, é ela professora.
Sua atuação em Atibaia começa em 1981 e até hoje ela mantém-se firme e renovando-se como a artista inspirada e inspiradora que sempre foi.
Em relação às politicas culturais, foi presidenta do Conselho Municipal de Políticas Culturais de Atibaia (COMPOCAT) por duas gestões, lutando pela manifestação da cultura em todas as suas dimensões.
Importante lembrar o entrelaçamento feito por ela de arte e meio ambiente que a levou a participar de relevantes eventos nacionais e internacionais, destacando-se ao valorizar a natureza junto às crianças e adolescentes com belas peças teatrais por ela dirigidas.

Muitos dos nossos talentos locais, que aqui não ouso colocar os nomes, pelo medo de esquecer alguém, nasceram deste olhar de compromisso com a emancipação humana pelas portas do teatro.
Recebeu o título de Amiga do Teatro e em várias ocasiões foi ovacionada na Câmara Municipal de Atibaia e em setores da sociedade civil.
Como regente, sempre ensolarou a cidade com um fino repertório, escolhido com muito esmero para cada apresentação.
Esta escriba, sobre Ísis Gonçalves, só pode afirmar: Sou fã! E como no clássico Imagina dos mestres Chico Buarque e Tom Jobim, música que ela tanto aprecia: “É preciso gritar e correr, socorrer o luar”. Continue Ísis!
* Juliana Gobbe é Doutora em Filosofia e História da Educação pela Unicamp. Autora de Óculos de Marfim, À esquerda do Império (2017) e Os primeiros tempos da literatura atibaiense (2024). Coordena o blogue “Tecendo em Reverso”, os coletivos Abraço Cultural, Kalúnia e participa do Coletivo André Carneiro.