Paulo do Rap faz aniversário, lança documentário e celebra a vida
“A Fúria e a Poesia do Hip Hop” pode ser visto de forma gratuita; veja entrevista com o rapper
Paulo César Dias, mais conhecido como “Paulo do Rap”, comemorou neste 29 de março mais um ano de vida. No entanto, não foi apenas uma simples celebração. Foi a estreia do documentário “Paulo do Rap: a Fúria e a Poesia do Hip Hop”. Paulinho, como também é conhecido, tem uma trajetória brilhante no hip-hop em Atibaia e foi agraciado pela Lei Paulo Gustavo para produzir um documentário sobre sua vida.
O curta documenta a trajetória de Paulo do Rap, artista que utilizou o hip hop como um meio de expressão e transformação social. Ele traz o protagonista revelando sua luta pela sobrevivência, destacando ao longo dos quase trinta minutos os momentos mais importantes de sua vida. O roteiro e edição é de Zizo Lino e Nego Nerd.
Paulo do Rap nasceu em condições precárias em Atibaia, enfrentando desafios como viver em um barraco e buscar alimentos no lixo. Sua infância humilde foi marcada pela esperança e pela cultura hip hop. Com 14 anos, Paulo se envolveu pela primeira vez com a cultura hip hop, fazendo amizade com outros jovens e participando de workshops de rap, dançando break e aprendendo sobre grafite. Ao longo dos anos, estabeleceu diversas iniciativas voltadas para a comunidade, incluindo um espaço cultural onde jovens podiam se reunir, aprender e expressar suas habilidades artísticas.
Desafios pessoais
Em 2013, Paulinho do Rap enfrentou uma doença que o obrigou a mudar sua dinâmica de vida e passar por hemodiálise. Dada a riqueza emocional e a complexidade da história contada, o filme procura mostrar de forma clara e objetiva as diversas conexões entre diferentes aspectos da vida de Paulo do Rap de maneira clara e acessível.
O trabalho pode (e deve) ser visto no Youtube, ou aqui:
Abaixo, a conversa exclusiva entre Paulinho do Rap e o Correio de Atibaia
Paulinho, tudo bem? Como foi lançar um documentário justamente no dia de seu aniversário, em 2025?
– Então Osni, lançar esse documentário no dia do meu aniversário foi um bagulho muito louco, porque há dois anos eu sonhava com o rim e eu estava numa situação muito lamentável, eu estava com crise de ansiedade, com o corpo todo machucado, meu coração estava a milhão. E estava tomando um remédio muito forte do coração. Meu coração estava funcionando acho que 40%, 50% e eu estava cansado. Dez anos de hemodiálise e, naquele momento, eu não queria nem que me chamassem porque eu estava todo debilitado. Enfim, em três meses, quatro meses, a situação mudou de uma hora para outra. A doutora viu que eu estava com crise de ansiedade (porque nem eu sabia), fui medicado, consegui melhorar um pouco a situação dos meus exames – potássio, fósforo, cálcio, os exames cardíacos –, mas dava para transplantar e aí, em seguida, veio o transplante.
E aí, como foi?
– Então, durante o transplante eu já estava na fase de fazer o documentário, estava na busca de um transplante, na fila do rim. No meio do documentário eu falava: “imagina se esse documentário termina comigo transplantado”. E aí o que aconteceu cara, quando, no meio do ano eu estava bem zoado, não consegui nem curtir o final do ano, eu estava muito mal. E no comecinho do ano eu consegui o transplante. Eu dei um breque no documentário, pedi para fazerem as oficinas que estão dentro do projeto do documentário, para me recuperar. Então, inclusive atrasei um pouco o lançamento, que era para ter sido no ano passado. E aí, cara, eu consegui conciliar tudo isso. Consegui conciliar o último dia do prazo que a gente tinha para estar entregando o relatório do projeto da Lei Paulo Gustavo, exatamente no último dia eu entreguei. Consegui postar no dia 28, colocar nas redes sociais e divulgar no dia 29 que inclusive é meu aniversário, mostrando que realmente foi um presente aniversário para mim, tá ligado?
Como foi produzir esse trabalho, Paulinho?
– A sensação que eu tive, na verdade, é assim. Eu conheço a minha história de cabo a rabo porque eu passei por ela, mas quando eu assisti – eu já assisti umas 10 vezes – então, eu vou lá e assisto de novo e vou pensando só nos detalhes. Realmente, para quem vê, deve ser muito emocionante saber que a luta foi desde pequeno. Tem muita coisa que eu não falei ainda, esqueci de falar que eu fiquei 6 meses na UTI assim que eu nasci. Falei que a gravidez foi de risco, mas não falei que nasci de 6 meses. Eu caí numa piscina, na casa de um patrão que minha mãe trabalhava, quase morri com 4 anos de idade. Enfim, teve muita coisa que eu não coloquei, mas a minha vida foi sempre assim. Então ver aquele documentário todo e ver as fases, lembrando das situações de tudo – porque na verdade foi tudo tão rápido, a nossa vida é tão rápida – mexeu um pouco aqui dentro… Porque estou começando de novo, acabei de transplantar, então estou retomando muita coisa saudavelmente que a ficha nem caiu ainda. Eu estou tendo uma sensação bem boa e o que está me dando vontade é de divulgar isso, porque a história é boa e passa uma energia boa, passa realmente o que eu fiz. É tipo um presente, porque é uma sensação de gratidão por tudo o que eu fiz. O documentário termina falando que a história não acabou, então eu quero usar esse documentário, essa história, para rodar escolas. Então, acho legal você falar isso, se você puder, pode resumir tudo que eu estou falando, eu sei que aí é uma matéria, resume bem, mas enfim, eu quero usar. (O Correio decidiu publicar na íntegra para passar a emoção e a importância da fala do entrevistado)
E agora, Paulo, o que vem por aí?
– O que eu quero com esse documentário? Eu quero usar ele para rodar a escola pública, falando um pouco da minha história para os alunos. Quero passar eles nas Fundações Casa, levar em todos os lugares que eu conseguir. E nos hospitais, porque eu falo de hemodiálise, nas salas de hemodiálise, então se isso daí ficasse bem específico na matéria, para quem lê a matéria e sente interesse de me chamar e me procurar, também quero usar também como uma geração de renda para mim, dando palestra e passando ele, dando palestra de oficina em colégio particular, nesse tipo de empresa, então essa é a ideia. Eu estou muito feliz, resumindo.
Como foi o Sarau que você organizou no hospital, que você conta no seu documentário? (alerta de spoiler)
– Eu levei um monte de poesia já cortada, tá ligado? Os papelzinho com poesias. Eu separei muita poesia, imprimi, cortei com a tesoura, porque eles estão sentados, então não dá para ir até o meio e tal. E eu não tinha livros de poesia para todo mundo também, né? Então eu separei algumas poesias e dei para eles sentadinhos na cadeira, tá ligado? Aí eu fui orientando, abri o sarau e eles sentados na cadeira, declamando. Foi muito bom, mano, muito bom. A enfermeira entrando na onda. Assim, a gente sempre fazia. Depois, vira e mexe a gente fazia em aniversário, a gente cantava. Eu passei a entrevista que eu fiz para a doutora, com a doutora também dentro da sala de hemodiálise, na televisão para todo mundo assistir…
Você envolvia todo o pessoal por onde passava?
– Sempre estava o pessoal. Quem me convocava muito era o pessoal da assistência social e o psicólogo. Eles dois juntos me chamavam e pedia para eu orientar em coisas que dava para fazer, tá ligado? Isso era muito bom.
Era um ambiente animado e divertido…
– Também produzi música dentro do hospital. Campeonato entre eles, funcionários, tipo a enfermagem contra a enfermagem do ouro andar, contra o outro setor. Aí teve um campeonato que tinha que fazer um Rap, a gente tinha que fazer músicas ou intervenções para os pacientes sobre a importância de lavar a mão. Aí eu ajudei fazendo um rap e eles ganharam o primeiro lugar, era bom mano.