Paixão de Cristo marca abertura dos 360 anos de Atibaia
Com espaço completamente lotado, trabalho mostrou a força do teatro comunitário
Roberta Barsotti, especial para o Correio
A encenação da Paixão de Cristo, apresentada no último dia 19 na arena do Centro de Convenções Victor Brecheret, propôs uma releitura simbólica e contemporânea dos últimos momentos de Jesus. Com estética minimalista e forte presença musical, a montagem me tocou mais pelo envolvimento comunitário do que pela fidelidade ao enredo tradicional.
Meu olhar sobre a encenação não se atem por ter acontecido no feriado de Corpus Christi e não na Semana Santa. Também não tem viés na parte religiosa, uma vez não tenho intimidade com o assunto.
O me chamou atenção foi o movimento coletivo que a produção gerou. Voluntários de diferentes idades se reuniram para contar uma história milenar, com uma dedicação visível. Em tempos de dispersão social, foi motivador ver um evento mobilizando a comunidade em torno de um tema simbólico, espiritual e cultural.

A plateia estava lotada. O público era diverso: vi curiosos, religiosos, artistas da cidade, padres e freiras prestigiando. Essa mistura mostra a força do teatro comunitário como linguagem capaz de unir diferentes mundos e motivações. Só isso já valida a proposta.

O ponto alto, para mim, foi a trilha sonora original: a ópera coletiva que teve como facilitador Samuel Quinto, reuniu o piano à Banda Sinfônica do Projeto Educando com Música e Cidadania estava muito bem ensaiada e afinada. Regida com competência por Luis Chinaglia e Felipe Ibraim, a composição era muito expressiva, com bastante percussão, sopros bem articulados e metais. O piano de cauda acrescentou peso estético e sensibilidade às passagens de dor, conflito, morte e ressurreição. Gostei muito da parte musical.

O elenco, formado por artistas amadores, artistas profissionais, pessoas de todas as idades que se sentiram chamadas pelo tema, demonstrou uma entrega genuína. O figurino simples, ainda que por vezes improvisado, dialogava com a proposta mais simbólica da encenação.

Um ponto que destoou um pouco na minha percepção foram as imagens projetadas no painel de led ao fundo para compor o cenário. Dentre as imagens, surgiu a de um cemitério com algumas sepulturas, no momento da crucificação de Jesus. Para as próximas edições, com mais tempo de preparo e recursos, dá para ambientar melhor com imagens que façam mais referência à época retratada.
Em termos de caracterização, o ator que interpretou Jesus tinha cabelos curtos e estava usando sandálias quando pregado na cruz. Senti falta da imagem clássica que habita o imaginário coletivo de Jesus de cabelos longos e descalço, mas reconheço também uma possível escolha simbólica e proposital: a ideia de um Cristo presente no homem atual comum e acessível, talvez uma adaptação contemporânea.
Maria teve um papel mais discreto que o habitual nas montagens tradicionais católicas. No entanto, a cena da Pietà foi marcada por uma presença feminina intensa: enquanto Maria permanecia silenciosa, em dor profunda, segurando o corpo morto de Jesus, uma outra mulher — possivelmente interpretando Maria Madalena — desesperava-se diante dela, chorando e cantando comovidamente.

Foi um recurso poético interessante, que mobilizou o público, trazendo o impacto emocional necessário à cena. Os grupos de balé clássico e contemporâneo também deram forte contribuição estética à montagem, com movimentos bem sincronizados e emocionalmente conectados às cenas.
Apesar de alguns desafios de ritmo e construção simbólica, o espetáculo cumpriu sua missão: promover emoção, reflexão e união entre artistas e espectadores. A força coletiva do teatro comunitário ficou evidente em cada detalhe construído com afeto.
Para os próximos anos, seria inspirador ver essa iniciativa crescer por meio de editais culturais, parcerias com artistas locais e patrocínios. A contratação de um diretor teatral, preparação mais elaborada de cenários e figurinos e oferta de formação podem valorizar ainda mais o esforço popular, gerar renda aos envolvidos e ampliar a participação da cidade no processo.
Que esse projeto siga amadurecendo, fortalecendo tanto a linguagem cênica quanto o laço afetivo entre quem assiste e quem se doa para realizar.
