Belchior ecoa na Casa Viva Piracaia em show que revisita seu legado
Em Piracaia, Vannick Belchior atualiza a obra do pai para além da nostalgia
A obra de Belchior nunca foi confortável, e talvez por isso continue tão atual. No próximo sábado, às 20h30, a Casa Viva Piracaia recebe o espetáculo “Cem”, apresentado por Vannick Belchior, em uma noite que promete mais do que uma homenagem: uma revisitação crítica e sensível de um dos repertórios mais marcantes da música popular brasileira.
A escolha de Piracaia como palco não é casual, tampouco irrelevante. Em um país onde a produção cultural ainda se concentra nos grandes centros, cidades do interior seguem desempenhando um papel fundamental na circulação da música brasileira. Espaços como a Casa Viva reforçam a descentralização cultural, ampliam o acesso à arte e mantêm viva uma memória musical que não se limita aos grandes circuitos urbanos.
Entre o destino e a escolha
A trajetória artística de Vannick Belchior não começou de forma planejada. Após a morte de Belchior, em 2017, e impulsionada por músicos próximos ao artista – como o violonista Tarcísio Sardinha – ela passou a interpretar a obra do pai. “Foi uma resposta ao momento e depois uma escolha”, afirma. A estreia efetiva veio apenas em 2021, após a pandemia, quando decidiu compreender com mais clareza o caminho que estava assumindo. “As portas foram se abrindo muito rapidamente, e eu precisei parar para entender exatamente por onde estava indo”, revela a cantora.
Legado e identidade
Assumir a obra de um artista como Belchior não é tarefa simples e Vannick demonstra consciência disso. Ainda assim, ela rejeita a ideia de que sua trajetória se limita à herança familiar. “Existe uma Vannick independente. A obra do meu pai é estruturante para mim, mas eu também quero construir minha própria história dentro da música popular brasileira.” Ao refletir sobre a preservação da obra, a cantora amplia o debate. “Os maiores guardiões são o povo brasileiro, que escuta, que leva essa música adiante.” A afirmação desloca o legado do campo da herança familiar para o da experiência coletiva, mas também levanta um desafio inevitável: como essa memória é preservada e reinterpretada ao longo do tempo.
Uma obra que ainda incomoda
Se há um ponto de convergência em sua leitura, é este: a obra de Belchior não pode ser suavizada. “Não há como tornar essa poesia confortável. São palavras cortantes, que expõem as contradições do Brasil.” Ao trazer esse repertório para o palco, Vannick não busca reproduzir o passado, mas recolocá-lo em circulação, ainda que esse movimento levante uma questão inevitável: como manter viva uma obra crítica sem transformá-la em produto de nostalgia? Questionada sobre a percepção do público nos anos 70 e agora, ela pondera: “o Brasil de hoje escuta Belchior de outra maneira, mas ainda enfrenta problemas semelhantes. São contextos distintos que se espelham.” Veja apresentação de Vannick no Altas Horas:
O sentido de “Cem”
O título do espetáculo também carrega uma camada simbólica. Segundo Vannick, “Cem” remete à canção “Meu nome é cem”, que retrata um Brasil marcado pela desigualdade e pela invisibilidade social (Meu nome é legião. Não sou só um. Sou um cidadão comum. Meu nome é cem. É claro, ainda é noite. A força eu falo, tudo bem). “É o retrato de um país em que o indivíduo, muitas vezes, se torna apenas um número.” A escolha do nome reforça o caráter crítico do show, afastando-o de uma simples celebração e aproximando-o de uma reflexão sobre o presente.
Memória em movimento
Outro aspecto marcante do projeto é a presença de músicos que conviveram diretamente com Belchior, como Tarcísio Sardinha e outros parceiros históricos. Ao trazê-los para o palco, Vanick não apenas resgata a obra, mas valoriza profissionais que ajudaram a construí-la. “Essas pessoas me fizeram entender a dimensão desse legado”, afirma. Essas presenças funcionam como pontes vivas entre passado e presente.
Interior como espaço de circulação cultural
Em tempos de consumo acelerado e atenção fragmentada, a existência de espaços como a Casa Viva Piracaia aponta para outra possibilidade de relação com a arte. Longe da lógica imediatista das grandes plataformas, o público encontra ali um ambiente que favorece a escuta, a presença e o encontro. Nesse contexto, a apresentação de Vannick Belchior ganha um sentido mais amplo: não apenas revisita a obra de Belchior, mas reafirma o papel das cidades do interior na democratização da arte e na circulação da memória cultural brasileira.
Serviço
Show: “Cem”, com Vannick Belchior
Data: 21 de março
Horário: 20h30
Local: Casa Viva Piracaia. Praça Julio Mesquita, 56, Piracaia – SP
Ingressos no Sympla: https://www.sympla.com.br/evento/meu-nome-e-cem-vannick-belchior/3322007
