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Começaria tudo outra vez

Arthur Gebara Junior

Se estivesse vivo, Luiz Gonzaga do Nascimento Junior estaria comemorando 80 anos do nascimento nestes 22 de setembro. Gonzaguinha, que nos deixou aos 45 anos, em 1991, provavelmente ainda estaria compondo aquelas canções românticas e cheias de otimismo que encantaram o público brasileiro nos anos 1980/90 e o elevaram a elite dos grandes compositores da MPB.

Mas nem sempre foi assim.  Antes de se tornar um compositor romântico, o filho de Luiz Gonzaga, o rei do Baião, teve uma trajetória associada aos movimentos de oposição à ditadura militar, que a partir de 1964 pressiona a produção cultural brasileira, com censura e controle dos meios de comunicação.

Na década de 1970, Gonzaguinha foi um dos mais ativos compositores do grupo de artistas e intelectuais que faziam oposição ao regime. Vítima da censura, teve mais de 50 músicas vetadas durante os primeiros anos de carreira. Sua obra refletia o clima de rebeldia e a luta por justiça social. Suas letras e melodias densas lhe renderam o apelido de “cantor rancor”, que refletia o seu famoso mau humor, mas, ao mesmo tempo, reforçava a imagem revolucionária do artista.

Liberdades democráticas
Artistas e intelectuais da época eram conhecidos pela postura militante, sempre defendendo, com muita propriedade, novos caminhos e soluções para o país. Bandeiras como liberdades democráticas, Estado de Direito e o fim da ditadura militar eram as pautas mais frequentes. Tudo isso era ainda mais importante quando levamos em consideração que foi um tempo em que todos viviam ameaçados pela censura e que de alguma forma expressavam o seu protesto por meio de metáforas. Se por um lado, a censura foi nefasta para a grande maioria dos criadores, contribuiu, por outro lado, para o surgimento de obras seminais da Música Popular Brasileira É só dar uma olhada no repertório da época de compositores como Chico Buarque, Caetano Veloso e Gilberto Gil, entre outros.  

Vindo de uma geração mais nova, Gonzaguinha começou a compor ainda adolescente, mas foi na faculdade de economia que iniciou sua trajetória como artista. (Na década de 1970 ele fundou com outros compositores, entre eles, Ivan Lins e Aldir Blanc, e César Costa Filho, o Movimento Artístico Universitário (MAU)), que deu origem ao programa Som Livre Exportação, na Rede Globo, em 1971. Nessa época Gonzaguinha construiu sua fama de compositor mau humorado com músicas como “Comportamento Geral” (1973), mas também produzia obras que beiravam o experimentalismo como no disco “Moleque”, de 1977.

Romântico total
Mas o mau humor e as composições de protesto escondiam um romântico incorrigível que a partir da redemocratização do país, na década de 1980, inicia uma nova fase da sua carreira.  O novo Gonzaguinha, mais otimista e cheio de esperança compõe algumas das canções que logo se tornariam sucessos populares e que embalaram o clima otimista da época como “E vamos à luta”, “É”,” O que é o que é”, verdadeiros manifestos pela vida, pela cidadania e pelo Brasil. O lado romântico de Gonzaguinha também não deixou a desejar com verdadeiros clássicos como o bolero “Começaria tudo outra vez” e a incisiva “Explode Coração”. Suas canções foram gravadas por grandes intérpretes como Maria Bethânia, Elis Regina e Zizi Possi, entre outras.

Mesmo com o grande sucesso das suas composições e dos seus shows, Gonzaguinha, no entanto, não escondia que ainda sofria os efeitos do distanciamento do pai, o grande Luiz Gonzaga, que durante sua infância foi totalmente ausente. De qualquer forma, apesar da relação complexa, os dois se reaproximaram e gravaram um disco juntos, que incluiu o sucesso, “Vida de Viajante”.

Acidente e morte
P
roduto dos anos de chumbo, Gonzaguinha era uma figura polêmica, mas que durante sua carreira enfrentou criticas dos conservadores, dos progressistas, e, principalmente, a pressão de ser filho de um dos maiores artistas brasileiros do século XX. No entanto, soube construir uma carreira impecável e se adaptar às mudanças produzindo sucessivos sucessos até sua morte em 1991 num acidente de automóvel quando estava a caminho do final da sua turnê. Teve três casamentos, um deles com a cantora e atriz Sandra Pera, irmã de Marília Pera, que acaba de lançar um novo disco só com composições do ex-marido. Seu último disco, “Cavaleiro Solitário” foi lançado no mesmo ano, postumamente. Imagem de abertura: Arquivo/EBC.

Ouçam

Gonzaguinha – “Comportamento Geral”
Gonzaguinha – “Sangrando”
Gonzaguinha – “Grito de Alerta”
Gonzaguinha – “Começaria tudo outra vez”

Gonzaguinha – “O que é o que é”