Gal Costa – 80 anos
Juliana Gobbe
Em 1945, depois de longos 10 anos da ditadura Vargas, o povo brasileiro, aspirando a democracia, elegia como presidente o general Eurico Gaspar Dutra, no entanto, enquanto a população aspirava uma situação, a presidência acordava outra. Dutra marcou seu mandato pela forte aliança com os EUA, tentando arrefecer ao máximo a luta dos movimentos e partidos de esquerda no Brasil.
Nas rádios, o mexicano Augustín Lara impunha aos brasileiros sua melancólica Granada em homenagem à cidade espanhola com o mesmo nome. Os artistas brasileiros: Dorival Caymmi e Herivelto Martins também não deixavam por menos. Caymmi com suas canções imagéticas e construídas com precisão, Herivelto debatendo-se com as dores de amor. A cada briga com Dalva de Oliveira uma letra nova surgia. Assim é boa parte da história da música popular brasileira com toques de dor, saudade e remorsos colocados na responsabilidade feminina.
Nesse contexto, em Salvador, Mariah Costa Penna estava grávida e pensava que viria um menino. Sonhando o futuro do esperado “filho” ela ouvia todos os dias um disco de música clássica, queria influenciar o bebê, ansiava para a criança um futuro musical repleto de sucesso.
Em 26 de setembro de 1945 vinha ao mundo: Maria da Graça Penna Burgos Costa, a “Gracinha” ou mais tarde “Gal”. Mariah esperava um menino, mas veio uma menina. A primeira parte do desejo não fora realizada, já a segunda concretizou-se para o Brasil e o mundo.
A menina Gracinha passou a sua infância numa Salvador ainda tranquila, sem os arroubos do “progresso”. Gostava de cantar e, segundo sua mãe já se expressava com música desde 1 ano e 7 meses. A amiga Sandra Gadelha lembra que Gal aos 7 anos já tinha ouvido absoluto e cantava como ninguém.
Dentre suas predileções, o amor pelos animais. Gal tinha uma galinha chamada “Boazinha” que curiosamente foi domesticada por ela e se submetia até mesmo a uma coleira para passeios na rua.
Certa vez em entrevista, a cantora disse que sempre foi dada às premonições, uma dela aos 12 anos já indicava que um dia seria uma artista reconhecida.

Quando adolescente, sua paixão pela música a levou a trabalhar numa loja de discos. O Brasil fervilhava Bossa Nova, Gal ouvia os discos da famosa gravadora Elenco. Atentamente dedicava-se a contemplar tudo que vinha de João Gilberto. Um dia, Silvio Lamenha a chamou para conhecer seu ídolo, bestificada foi ao encontro dele, ao chegar ele perguntou se ela tinha violão, ela disse que sim e voltou na sua casa para pegar o instrumento, quando retornou, o famoso baiano afinou as cordas, tocou um pouco, e logo pediu para Gal cantar. Ela cantou uma, duas, três músicas e nada acontecia, nenhuma manifestação do artista consagrado. Depois de uma longa cantoria, João Gilberto pediu que ela parasse e disse: “Gracinha, você é a maior cantora do Brasil”. A escolha de Gal para este posto também foi a de Caetano Veloso, Tom Jobim e muitos músicos. Aliás, a própria Elis Regina também chegou a fazer esta declaração em entrevista.
Em 1967, ao lado de Caetano Veloso, ela lança o LP: Domingo. As baladas Sim, foi você e Eu vim da Bahia caíram no gosto popular. Gal colocou seu primeiro trabalho à venda na antiga loja de discos na qual trabalhava. Ao voltar pra buscar o valor das vendas, deparou-se com a notícia de que tinha vendido 120 discos, ficou felicíssima, posteriormente descobriu que o antigo patrão Roni era o comprador destes LP’s. Queria dar aos amigos de presente, mostrar a bela voz da antiga funcionária.
Sobre este disco a crítica emitiria o parecer de que Gal era uma espécie de João Gilberto de saias. A própria artista nunca escondeu sua admiração e o fato de que no começo da carreira imitava seu jeito cool de cantar. Aliás, chama a atenção uma prática curiosa da artista para desenvolver sua técnica vocal intuitivamente. O ritual constitua em cantar com uma panela na frente da cabeça dentro do banheiro por conta do eco. Nestes experimentos Gal trabalhava na intuição a respiração diafragmática.
Os anos que se seguiram nos mostraram uma cantora: Plural. Uma pessoa tímida. Uma artista audaciosa. Em cada disco o cuidado com a escolha do repertório, o esmero com os arranjos, o trabalho apurado com a voz. Para o Brasil nasceria uma estrela, que por talento brilhou também em outros lugares.
Assim, foi construindo uma carreira riquíssima do começo ao fim. Quem ouve seus discos, logo comprova isso.
Cantou Cazuza, mostrou os seios em show icônico, se posicionava politicamente quando preciso, sem jamais ficar debaixo da cama.
São 31 discos de estúdio, muitos prêmios, inclusive internacionais. Turnês inesquecíveis que aqueceram muitos corações.
Na gravação do show ao vivo do disco Hoje, antes de cantar a música Voyeur aconteceu um episódio hilário e que comprova o tamanho da presença da musa. Gal foi pedida em casamento por uma pessoa da plateia. Cena inesquecível!
Gal era assim, um mistério, tímida e expansiva, com um poder de sedução que não permanecia só na voz, mas ia também para todos os seus gestos.
Nos anos 2000, dedicou-se a prestigiar os novos músicos brasileiros, o que conseguiu com sucesso. Muitos talentos foram contemplados.
Em 10 de novembro de 2022 ela partiu, deixou o Brasil mais triste. A Voz se calou.
Ninguém pensa na morte, se é que algumas pessoas morrem mesmo ou ficam encantadas como queria nosso João Guimarães Rosa. Talvez seja essa a sina de Gal, ficar eternizada na música popular brasileira, como voz singular, “filha de todas as vozes que vieram antes e mãe de todas as vozes que virão depois”.
Hoje, 26 de setembro de 2025 ela faria 80 anos. Coloco-me a refletir sobre a palavra admiração que em seu escopo etimológico tem a ver com espanto, a ideia me agrada. Gal era mesmo plural, não me furto à sedução de escrever isso, aliás, caso precisasse gritaria a plenos pulmões. Dentro dessa multiplicidade destaca-se uma sensibilidade ímpar, minha memória absorve as lembranças da primeira vez em que reparei sua voz, tinha em torno de 11 anos, ouvia dentro do carro na garagem da minha casa. A música era Faltando um pedaço de Djavan, de lá pra cá muitas coisas mudaram, mas a emoção ao ouvi-la permanece a mesma. A voz dela mora em mim e isso me preenche de uma tal maneira que posso dizer que por aqui ela permanecerá por toda a minha vida, como o registro da delicadeza materializada em canção.
Juliana Gobbe é Doutora em Filosofia e História da Educação pela Unicamp. Autora de Óculos de Marfim, À esquerda do Império (2017) e Os primeiros tempos da literatura atibaiense (2024). Coordena o blogue “Tecendo em Reverso”, os coletivos Abraço Cultural, Kalúnia e participa do Coletivo André Carneiro.
