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“Vênus visitou São Paulo” emociona público em sessão comentada na Casa do Leitor”

Curta de Socorro Lira provoca emoção e reflexão ao transformar São Paulo em território de encontro e escuta

Osni Dias

Há filmes que terminam quando os créditos sobem. Outros continuam em silêncio, ocupando o espaço entre as pessoas. Vênus visitou São Paulo, de Socorro Lira, pertence a esse segundo grupo. Exibido no último sábado (7) na Casa do Leitor, em Bom Jesus dos Perdões, o curta provocou algo raro: atenção plena, emoção compartilhada e uma conversa que não precisava ser conduzida, mas apenas escutada.

A obra tocou a todos os presentes. Não por excesso, mas por precisão. Pela fotografia cuidadosa, pela produção rigorosa e, sobretudo, pela delicadeza com que trata o que quase sempre vira paisagem: a cidade e quem vive à margem dela. Ao final da sessão, os elogios à cineasta e à equipe vieram naturalmente, como se o público precisasse devolver algo do que recebeu.

No centro do filme está Nui, personagem que atravessa São Paulo e, ao fazê-lo, nos atravessa também. Sua trajetória se cruza com a do Padre Júlio Lancellotti, interpretando a si mesmo. Não como símbolo, mas como presença. “São duas personagens muito incríveis, Nui e Padre Júlio. Tê-lo fazendo ele mesmo é uma sorte enorme”, afirmou Socorro durante a conversa.

A diretora foi direta ao falar sobre o que a moveu a realizar o filme. “O problema é que o foco da atenção dos meios de comunicação está concentrado na violência, na dor, na miséria humana.” Para ela, bastaria deslocar parte desse olhar para outras narrativas para que algo se transformasse. “A gente criaria uma onda positiva e criativa que transforma a realidade.”

Essa transformação, no filme, acontece pelo encontro. “No momento em que Nui percebe que existia bondade no mundo através do Padre, ela se tranquilizou”, explicou. Não há redenção fácil, nem discurso religioso explícito. Não por acaso, Socorro decidiu cortar falas que poderiam enquadrar a obra como um filme confessional. O foco está menos na fé e mais na ética do cuidado.

Tecnicamente, Vênus visitou São Paulo também faz escolhas pouco óbvias. A cidade não é acompanhada por trilha sentimental, pois ela soa naturalmente. “É o som de São Paulo o tempo todo”, disse a diretora. O ruído urbano vira linguagem, obrigando o espectador a escutar aquilo que normalmente tenta ignorar. Diferentemente do que ocorre em muitos filmes, ele não se apoia em uma trilha sonora tradicional. Sua paisagem sonora é a própria cidade — seus ruídos, conversas, passos e latidos — transformados em matéria narrativa. Essa escolha reforça a ideia de que a metrópole não é cenário, mas personagem. Nunca é demais dizer que a fotografia é impecável.

Outro ponto forte é a recusa aos estereótipos. As pessoas atendidas pelo Padre Julio estavam todas confortáveis na tela, da forma em que verdadeiramente se apresentam no dia a dia da cidade. “O povo da rua se cuida”, afirmou Socorro Lira. “Existe uma dignidade que a gente quis manter.” Nui não é construída a partir da estética da miséria, mas da resistência cotidiana, o que a diretora fez questão de preservar.

Durante a conversa, Socorro falou ainda do cinema como processo aberto, onde o roteiro só se completa na montagem, e da produção como um pequeno milagre coletivo. “Fazer cinema independente no Brasil já é um ato de coragem”, disse. Terminar o filme, segundo ela, só foi possível pela entrega absoluta da equipe.

Ao final, ficou claro que o filme não pede piedade, nem aplauso fácil. Ele pede deslocamento. “Eu espero que, ao sair do cinema, o espectador não consiga mais olhar para a rua da mesma maneira”, afirmou a diretora.

Na Casa do Leitor, numa tarde de sábado, isso aconteceu. A cidade deixou de ser ruído. E virou gesto.