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Mês da Mulher: mais uma oportunidade para reflexão

O Brasil registra recordes de feminicídio e expõe uma contradição incômoda: mais do que homenagens, precisamos de consciência e engajamento real, sobretudo dos homens

Osni Dias

O calendário chegou novamente ao Dia Internacional da Mulher e, como ocorre todos os anos, as redes sociais se encheram de flores, mensagens inspiradoras e homenagens protocoladas. Mas, por trás desse ritual quase automático, existe uma realidade que insiste em nos constranger.

Os números não deixam espaço para ilusões. Em 2025, o Brasil registrou 1.518 feminicídios, o maior número desde que o crime passou a ser tipificado na legislação brasileira. Na prática, significa dizer que quatro mulheres são assassinadas todos os dias no país por razões de gênero. O dado aparece em levantamentos divulgados pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública e ajuda a dimensionar a gravidade de um problema que atravessa toda a sociedade.

Se olharmos para a última década, desde que a legislação passou a reconhecer esse tipo de crime, o quadro se torna ainda mais perturbador. Mais de 13 mil mulheres foram mortas no Brasil em casos classificados como feminicídio. Em grande parte das ocorrências, os crimes acontecem dentro de casa e são cometidos por parceiros ou ex-parceiros. O lugar que deveria representar segurança, transforma-se, para muitas mulheres, no espaço da violência.

Mas o feminicídio não surge do nada. Ele costuma ser o último capítulo de uma cadeia de agressões que começa muito antes. Começa em comportamentos que muitos ainda tratam como irrelevantes: piadas de mau gosto, comentários machistas naturalizados, tentativas de controle sobre a vida das mulheres ou aquele silêncio cúmplice que tantas vezes acompanha atitudes abusivas.

Por isso, esse debate não pode permanecer restrito às mulheres. Os homens precisam reconhecer que fazem parte do problema — e também da solução. Isso passa por gestos simples, mas decisivos: questionar piadas misóginas entre amigos, interromper comentários desrespeitosos, discutir o tema dentro de casa, no trabalho e nas escolas. Mais do que homenagens ocasionais, o que se espera é consciência e responsabilidade.

O cenário político brasileiro também tem oferecido exemplos preocupantes. Nos últimos anos, episódios de ataques verbais, desqualificação e agressões simbólicas contra mulheres tornaram-se frequentes no próprio Congresso Nacional, quando figuras públicas decidem naturalizar esse tipo de comportamento. Parlamentares acabam, dessa forma, legitimando uma cultura que banaliza o desrespeito. E o mais inquietante é perceber que, muitas vezes, esse comportamento encontra eco e apoio em parte da sociedade.

Há, portanto, um contraste evidente entre o espírito que deu origem à data e a forma como ela passou a ser celebrada. O Dia Internacional da Mulher nasceu das lutas por direitos, por igualdade e por condições dignas de trabalho. Reduzi-lo a um gesto simbólico anual talvez seja uma das maneiras mais eficientes de esvaziar seu sentido histórico.

Essa reflexão também precisa chegar às cidades. Municípios de porte médio, como Atibaia, convivem com o desafio de consolidar uma rede de proteção efetiva para mulheres em situação de violência. Isso exige mais do que anúncios pontuais ou boas intenções. Requer políticas públicas contínuas, investimento, articulação institucional e, sobretudo, participação ativa das próprias mulheres na construção dessas iniciativas.

Medidas como a criação de uma Delegacia de Defesa da Mulher representam, sem dúvida, um passo importante. Mas para que tenham impacto real precisam ir além do anúncio formal. Exigem estrutura adequada, integração entre os órgãos de proteção e protagonismo feminino na formulação e condução dessas políticas. Sem isso, corre-se o risco de que ações necessárias acabem restritas ao campo simbólico, sem enfrentar de fato as raízes da violência.

Enquanto quatro mulheres continuarem sendo assassinadas todos os dias no Brasil, flores não serão homenagem. Serão distração. E mais do que celebração, o que esta data exige é compromisso.