Antes do feminicídio, existe uma história de violência que precisa ser interrompida
Dados de Atibaia revelam a dimensão da violência contra as mulheres e mostram a importância de uma rede que começa na informação, passa pelo acolhimento e chega à proteção
Osni Dias
Por trás de cada feminicídio existe uma história. E, quase sempre, antes do desfecho mais extremo, houve sinais, ameaças, controle, humilhações, agressões, medo e uma mulher tentando encontrar uma saída.
Em Atibaia, os números ajudam a dimensionar o tamanho desse problema. A Cartilha do Anuário da Violência Contra a Mulher em Atibaia, referente a 2025, reúne informações produzidas pelo Centro de Referência da Mulher Dirce Bellingeri, pelo Sistema de Informação de Agravos de Notificação (SINAN), pela Segurança Pública e pelo sistema de Justiça.
O levantamento registra 679 ocorrências de violência doméstica na Delegacia, 375 medidas protetivas deferidas e 61 registros de descumprimento de medidas protetivas, sendo 48 deles em flagrante. Também foram registrados dois feminicídios no município em 2025. Na área da saúde, foram contabilizados 310 registros de violência interpessoal ou autoprovocada contra mulheres nas notificações do SINAN. No Centro de Referência da Mulher, 238 novas mulheres foram atendidas ao longo de 2025.
Os números, entretanto, não contam toda a história. A própria cartilha mostra que a violência contra a mulher não começa necessariamente com uma agressão física. Entre os casos atendidos pelo CRM, a violência psicológica aparece em 95% dos registros, seguida pela violência moral, com 77%, física, com 71%, patrimonial, com 58%, e sexual, com 32%.
É nesse ponto que a informação ganha uma importância que pode ser decisiva. “Eu diria primeiro que ela não precisa esperar ter certeza de tudo para procurar orientação”, afirma Mariana Farcetta, presidenta da DIGNA Instituto. Para ela, procurar ajuda não significa necessariamente que a mulher precise tomar imediatamente uma decisão sobre a relação ou registrar uma denúncia. Significa poder compreender o que está acontecendo, conhecer seus direitos, avaliar os riscos e pensar nos próximos passos com apoio. A orientação é especialmente importante porque muitas situações de violência permanecem dentro de casa, longe dos registros oficiais.
Mariana também chama atenção para uma mudança necessária na forma como a sociedade encara essas situações. Em vez de perguntar por que uma mulher não vai embora, é preciso perguntar quais condições estão sendo oferecidas para que ela consiga sair com segurança. “O problema deixa de ser colocado sobre a mulher e passa a ser uma responsabilidade compartilhada pela rede, pelo Estado e pela sociedade”, afirma.
A rede de proteção
É justamente a existência de uma rede articulada que aparece como um dos pontos centrais nas entrevistas realizadas pelo Correio de Atibaia. A Guarda Civil Municipal, por meio da Patrulha Maria da Penha, atua especialmente no acompanhamento de mulheres que possuem medidas protetivas.
Martins, responsável pelo trabalho, explica que a função não se resume a verificar se o agressor está cumprindo aquilo que foi determinado pela Justiça. A equipe visita a mulher, acompanha a situação e realiza rondas nos endereços residencial e profissional. Em determinadas situações, o acolhimento também alcança os filhos.
Desde o início do trabalho, em 2019, a Patrulha Maria da Penha já realizou quase 2 mil atendimentos relacionados a processos com medidas protetivas concedidas. Atualmente, segundo Martins, cerca de 600 mulheres são acompanhadas no município por terem medidas protetivas ativas. Mas a própria responsável pela Patrulha faz uma ressalva importante: nenhuma instituição consegue enfrentar sozinha a violência contra a mulher. “Nós temos um trabalho em rede no município”, afirma Martins. “A Guardiã Maria da Penha sozinha não faz nada. Se eu não tenho essa rede fortalecida, essa mulher não consegue romper esse ciclo de violência.”
Ela aponta o Centro de Referência da Mulher como um dos principais parceiros dessa rede. O CRM, segundo Martins, está de portas abertas para orientar mulheres independentemente da existência de boletim de ocorrência. É uma informação que merece ser repetida porque pode derrubar uma das barreiras que impedem muitas mulheres de procurar ajuda: a ideia de que primeiro é preciso denunciar para depois buscar acolhimento.
Não é bem assim assim. O Centro de Referência da Mulher Dirce Bellingeri informa que oferece atendimento gratuito e sigiloso, com escuta, atendimento psicossocial, orientação jurídica e encaminhamento para a rede de proteção. A mulher pode procurar o serviço mesmo sem ter registrado boletim de ocorrência.
O ciclo
Os materiais de orientação distribuídos em Atibaia ajudam a compreender também a dinâmica da violência. Controle sobre roupas, amizades e contatos. Humilhações. Ameaças. Isolamento. Chantagem. Controle financeiro. Violência sexual. Destruição de bens. Agressões. Nem sempre o primeiro sinal parece suficientemente grave para que alguém diga: isso é violência. É justamente por isso que a violência psicológica merece atenção especial.
A cartilha mostra que ela foi identificada em 95% dos casos atendidos pelo CRM em 2025. É uma forma de violência que pode não deixar marcas visíveis, mas pode produzir medo, dependência, isolamento e perda de autonomia. Martins resume a importância de reconhecer esses sinais antes que a situação se agrave: “a informação salva vidas.”
A violência também não termina necessariamente na mulher. A Patrulha Maria da Penha identifica situações em que filhos e outros familiares acabam atingidos pela dinâmica de violência. A própria cartilha inclui a chamada violência vicária, quando filhos, familiares ou animais são utilizados para causar sofrimento à mulher. E há outro dado importante: 55,5% das mulheres atendidas pelo CRM em 2025 tinham filhos com o agressor.
A dimensão racial
A violência contra a mulher também precisa ser observada a partir da desigualdade racial. Silvana Cotrim, do Quilombo Urbano Negra Visão, chama atenção para uma experiência que, segundo ela, frequentemente permanece invisível quando se fala genericamente em violência contra a mulher. Para ela, mulheres negras estão submetidas simultaneamente à violência de gênero e ao racismo. “A mulher é a base da pirâmide da humilhação, porque ela é humilhada por ser mulher e ela é humilhada ainda mais por ser uma mulher preta”, afirma.
Silvana também questiona a forma como mulheres negras são recebidas quando procuram os serviços públicos. Segundo ela, há situações em que a mulher negra não é reconhecida imediatamente como vítima e pode ser tratada também como agressora. A fala traz para a reportagem uma questão que não pode ser ignorada: uma rede de proteção só é efetivamente uma rede de proteção se conseguir acolher diferentes mulheres, com suas diferentes experiências e vulnerabilidades.
Os números do Anuário mostram que 49,3% das mulheres novas atendidas pelo CRM em 2025 eram pretas ou pardas. A cartilha observa que a análise desse dado deve considerar a composição racial do município, cuja população, segundo o material, é majoritariamente declarada branca.
A porta de saída
Talvez a informação mais importante desta reportagem seja também a mais simples. Uma mulher não precisa esperar a violência chegar ao extremo para procurar ajuda. Ela pode procurar o Centro de Referência da Mulher para conversar. Pode buscar orientação. Pode procurar uma PLP. Pode procurar a Delegacia de Defesa da Mulher. Pode acionar a Guarda Civil Municipal. Pode ligar para o 180.
As Promotoras Legais Populares cumprem, nesse caminho, uma função comunitária importante. Mariana explica que elas não substituem advogadas, defensoras, delegadas ou os serviços especializados. Sua função é democratizar o conhecimento sobre direitos e atuar como ponte entre as mulheres e a rede de proteção. Em Atibaia, o movimento existe desde 2020. É uma rede que precisa funcionar antes da emergência. Porque o feminicídio é o ponto extremo de uma violência que pode ter começado muito antes.
E se existe alguma mensagem capaz de atravessar toda esta reportagem, talvez seja justamente esta: A dúvida já é motivo suficiente para pedir ajuda. “Não esperar que a violência se torne física ou mais grave para considerar que merece ajuda”, reforça Mariana.
Nos próximos dias, o Correio de Atibaia vai aprofundar essa discussão, ouvindo as mulheres e profissionais que estão na linha de frente do enfrentamento à violência de gênero em Atibaia. Serão entrevistas completas com Mariana Farcetta, presidenta do DIGNA Instituto; Gabriela Antunes dos Santos Antonio, do Centro de Referência da Mulher; Martins, da Patrulha Maria da Penha; e Silvana Cotrim, do Quilombo Urbano Negra Visão.
A série começa pela informação. Porque reconhecer a violência também pode ser o primeiro passo para interrompê-la.

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