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A tempestade é a mesma. Mas ninguém enfrenta o clima do mesmo jeito

A bióloga Raquel Silva mostra como renda, arborização, infraestrutura e território definem quem fica mais protegido – ou mais exposto – diante da mudança climática

Osni Dias

Imagine uma tempestade chegando. A chuva é a mesma. O vento é o mesmo e a temperatura é a mesma. Porém, as pessoas não estão necessariamente na mesma situação. Uma família pode morar em uma região segura, ter uma casa estruturada, carro, ar-condicionado e recursos para deixar o local se necessário. Outra pode viver em uma área de risco, depender do transporte público, enfrentar calor dentro de casa e não ter para onde ir. É nesse ponto que entra o conceito de justiça climática.

Para Raquel Costa da Silva, bióloga, mestre em Ecologia e Conservação e doutoranda em Sociedade e Meio Ambiente pela Unicamp, a mudança climática não afeta todo mundo da mesma maneira. Quem tem mais recursos geralmente consegue se proteger melhor. Quem tem menos opções pode ficar mais exposto ao calor, às enchentes e a outros impactos. “A tempestade é a mesma para todos, mas as condições para enfrentá-la são iguais?”, pergunta a bióloga.

A pergunta é simples. A resposta é que não. A sombra também é uma forma de proteção. A arborização urbana é um bom exemplo. Duas regiões podem registrar temperaturas semelhantes, mas a sensação térmica pode ser muito diferente. Árvores oferecem sombra e ajudam a refrescar o ambiente por meio da evapotranspiração. Já áreas com muito concreto e pouca vegetação tendem a acumular mais calor. O problema é que essa proteção também pode ser desigual.

Bairros mais valorizados e com maior investimento público frequentemente têm mais árvores, praças e áreas verdes. Em áreas periféricas, a população pode conviver com menos vegetação e maior exposição ao calor. Por isso, uma política de arborização não deveria simplesmente plantar árvores onde já existem muitas. Ela precisa descobrir onde elas fazem mais falta.

Jardim Imperial
Raquel atua no Jardim Imperial e usa o próprio bairro para mostrar como clima, território e desigualdade podem se encontrar. O bairro tem uma das vistas mais bonitas de Atibaia, com a Pedra Grande ao fundo. Mas isso não significa que todos os moradores tenham acesso à natureza que enxergam. Ela relata que existem moradores que nunca tiveram a oportunidade de ir até a Pedra Grande ou sequer conhecem o Parque Grota Funda. No próprio bairro, as áreas arborizadas aparecem muitas vezes como pequenas ilhas entre casas, vielas e escadões. E existe uma cena que resume bem o problema.

A Praça do Migrante Nordestino é uma grande área de concreto destinada ao lazer e à cultura. Mas, sem árvores, o espaço fica excessivamente exposto ao sol. Bancos ficam quentes e os brinquedos de plástico podem se tornar desconfortáveis para as crianças. Na memória dos moradores, aquele espaço já foi um campo. E o contraste é forte: um lugar criado para ser área de convivência pode se tornar pouco convidativo justamente nos dias mais quentes. A questão não é simplesmente ter ou não ter uma praça, é saber que tipo de espaço público está sendo oferecido e para quem ele funciona.

Quando a sombra está dentro da loja
Raquel também chama atenção para diferenças de manutenção entre regiões da cidade. Segundo ela, parques e praças de bairros mais centrais recebem cuidados mais constantes, enquanto no Jardim Imperial o mato pode chegar a mais de dois metros. O bairro também enfrenta falta de lixeiras e problemas relacionados ao córrego e ao escoamento de esgoto. Nos dias de calor, uma situação chama atenção: em um bairro pouco arborizado, muitas pessoas encontram sombra e conforto térmico justamente dentro de lojas, mercados e outros espaços comerciais. É um detalhe que diz muito sobre a relação entre espaço público e clima. A rua deveria ser um lugar possível de permanecer. A praça deveria ser um lugar possível de brincar. O caminho até a escola deveria ser minimamente confortável. Quando isso não acontece, a desigualdade climática aparece no cotidiano.

Política pública precisa começar pelo mapa
Para Raquel, uma política de arborização precisa ser construída a partir de dados. É necessário mapear os territórios, analisar informações ambientais e demográficas, identificar as áreas mais vulneráveis, fazer projetos-piloto, avaliar os resultados e monitorar o que foi realizado. Mas existe algo que nenhum mapa consegue substituir: quem mora no lugar. A participação dos moradores, afirma ela, é fundamental porque são essas pessoas que conhecem os problemas do território no dia a dia.

Isso vale para árvores, drenagem, áreas verdes, equipamentos públicos e praticamente qualquer política de adaptação. A mudança climática, afinal, não acontece em um mapa abstrato. Ela acontece em uma rua, numa casa que esquenta demais, no ponto de ônibus sem sombra, na praça onde uma criança não consegue brincar no meio da tarde, na margem de um córrego, e sobretudo na encosta, onde uma família sabe que a chuva forte pode mudar tudo.

É por isso que falar em justiça climática não significa distribuir exatamente a mesma coisa para todos. Significa reconhecer que as necessidades são diferentes e que os investimentos precisam levar essas diferenças em conta. E há uma pergunta crucial por trás disso: quem decide onde investir e quanto investir antes que o problema aconteça?

É essa discussão que leva a série à sua próxima voz.

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