A última magia de uma camisa 10 da Seleção Brasileira
Por dentro do jogo
Ancelotti não teve tempo. Afinal, quem teria? Olhar para o Selecionado Brasileiro em campo é saber que iremos sofrer. E por diversos motivos, diversas razões que enterraram nosso futebol, nossa criatividade, que impediram de aliar o genial ao prático. Hoje, nem forma, nem resultado. Somos reféns de uma história que deixamos de escrever quando passamos a jogar no modelo europeu, sem uma cabeça pensante, sem um camisa 10 de verdade.
Sem ter encontrado, nos últimos 10 anos, um herdeiro à altura, a camisa imortalizada por Pelé, em um time que ainda havia Garrincha, já esteve nas mãos de Neymar, Philippe Coutinho, Lucas Paquetá e Rodrygo. Porém, o que se viu foi muito pouca entrega no que diz respeito a resultados para um país em que só a conquista interessa. Marta, por sua vez, a maior 10 da história do Futebol Feminino Brasileiro tem feito muitos fãs do Futebol Masculino não só acompanhar as partidas, mas também estampar seu nome às costas de suas camisas de Seleção.
Crise? Não. Apenas uma vertente, uma mudança que é fruto de quem enxerga futebol para além dos resultados, mas dentro de um conjunto com hierarquia de valores, compromisso, comprometimento, profissionalismo e perseverança. Ser jogadora de futebol no país é difícil. Falta investimento, faltam condições de se desenvolver o trabalho. Falta quem pague por isso, sem contar no abismo da diferença salarial para o masculino. Mas Marta venceu no Brasil e conquistou um lugar no exterior, algo tão sonhado por muitos e muitas.
Ela que com maestria alcançou feitos históricos com a camisa 10 da seleção não nos permitiu deixar de sonhar. Maior artilheira, eleita seis vezes a Melhor Jogadora do Mundo pela FIFA, um recorde absoluto, tendo conquistado três Copas América e três medalhas olímpicas de prata (2004, 2008 e 2024), Marta lidera o imaginário e a realidade da seleção com talento e carisma.
Assim, na última segunda-feira, 02, Marta foi ovacionada no mesmo campo onde, uma semana antes, Neymar era vaiado com a 10 do Santos. A cena – imortalizada nas lembranças de quem viveu as duas partidas – diz muito sobre a simbologia do Futebol Brasileiro. Enquanto a camisa 10 masculina perdeu seu brilho, a de Marta manteve acesa a chama do orgulho nacional. Fazendo com que sua despedida da Seleção, anunciada em 2024, tivesse sido apenas um até logo. Ela voltou, liderou, organizou e mostrou o prazer de se ver a magia da camisa 10 em campo.
Com a escassez de ídolos na seleção masculina, Marta não se aproveitou disso. Ela construiu sua trajetória com garra e se tornou grande referência do esporte nacional, mundial. Com história que inspira, a nossa 10 é muito mais que talento, é a referência que muitos não souberam ser. Enquanto a seleção masculina busca um novo camisa 10 que resgate a magia de tempos vitoriosos, a seleção feminina viveu essa experiência em Marta que já garantiu sua eternidade no coração dos brasileiros e na história do futebol mundial.

Bruno Velasco
Formado em Jornalismo pela UVA – Universidade Veiga de Almeida (RJ), possui experiência em documentário, fotografia, rádio e produção de conteúdo pela Agência ZeroUm, SP.
