Jornalismo indígena: quando contar a história também é uma forma de existir
Poranga Marandúa, primeiro manual brasileiro de jornalismo indígena, chega às mãos dos jornalistas com uma proposta que ultrapassa palavras e verbetes: mudar a maneira como os povos originários são ouvidos, compreendidos e retratados pela imprensa
Osni Dias
Imagens: Ana Clara Gonçalves
Há histórias que durante muito tempo foram contadas por quem estava do lado de fora. Os povos indígenas brasileiros conhecem bem essa história. Durante séculos, foram descritos, classificados, fotografados, pesquisados e transformados em notícia por pessoas que, muitas vezes, pouco conheciam seus territórios, suas culturas, suas línguas, seus tempos e suas formas de compreender o mundo.
Agora, uma nova página começa a ser escrita. Foi lançado nesta segunda-feira, 10 de agosto, na Câmara dos Deputados, em Brasília, o Poranga Marandúa, primeiro Manual de Redação do Jornalismo Indígena do Brasil. A publicação é uma iniciativa da Articulação Brasileira de Indígenas Jornalistas (Abrinjor) e reúne conhecimentos, orientações e experiências construídos coletivamente por jornalistas indígenas de diferentes povos e biomas brasileiros.
Poranga Marandúa significa “boa notícia” em Nheengatu. E talvez não exista nome mais adequado para uma publicação que pretende justamente ajudar o jornalismo a encontrar novas maneiras de contar velhas histórias. O manual não é apenas um glossário de palavras que devem ser evitadas. É, sobretudo, uma provocação ao próprio jornalismo. A proposta é mostrar que existe uma diferença profunda entre falar sobre os povos indígenas e construir uma narrativa jornalística que reconheça neles sujeitos de sua própria história.


“É importante ressaltar que esse Manual fala sobre a identidade do profissional indígena jornalista no Brasil e também ajuda na desconstrução de estereótipos, na construção de pautas mais éticas, respeitosas também relacionadas aos povos indígenas e às diversas culturalidades”, explica Luciene Kaxinawá, coordenadora-geral da Abrinjor.
Indígena do povo Huni Kuin, Luciene conhece essa mudança também a partir da própria trajetória. Jornalista desde 2014, tornou-se a primeira jornalista e apresentadora indígena da televisão brasileira e construiu sua carreira passando por diferentes experiências no jornalismo, na produção audiovisual e na cobertura de temas relacionados à Amazônia e aos povos indígenas. Hoje, ela está do outro lado da história. Não mais apenas como personagem de uma reportagem, mas como jornalista, profissional de comunicação e uma das pessoas responsáveis por ajudar a transformar a maneira como essas reportagens são produzidas. É uma diferença que parece pequena no papel, mas muda tudo.
O Poranga Marandúa apresenta uma trajetória do jornalismo indígena no Brasil, discute a identidade do profissional indígena, aborda a diversidade dos povos originários e reúne verbetes e orientações para ajudar jornalistas a evitar expressões e abordagens carregadas de preconceitos e estereótipos.


A Abrinjor reúne integrantes de comunidades distribuídas pelos seis biomas brasileiros. Segundo dados divulgados pela própria articulação e pela imprensa especializada, são 46 comunidades representadas, num movimento que procura aproximar a identidade indígena da prática profissional do jornalismo. Não se trata, portanto, de criar um jornalismo separado do restante da imprensa. É justamente o contrário.
“Vale muito a pena as empresas de comunicação – os jornalistas do Brasil inteiro – terem acesso a esse tipo de material para que nós possamos construir narrativas que façam sentido e que comuniquem sobre povos indígenas e para povos indígenas também”, afirma Luciene.
É aí que o manual deixa de ser apenas uma publicação destinada aos jornalistas indígenas. Ele passa a ser uma ferramenta para todo jornalista que precise cobrir uma comunidade indígena, entrevistar uma liderança, produzir uma reportagem sobre território, meio ambiente, educação, saúde, cultura ou política indígena. Porque saber perguntar também é uma forma de fazer jornalismo. Saber a quem perguntar é outra.
Respeitar o tempo de uma comunidade, compreender suas hierarquias, reconhecer uma liderança e não transformar a cultura de um povo em simples ilustração de uma reportagem fazem parte de uma apuração que pretende ser, antes de tudo, responsável.

O manual já vinha sendo construído há algum tempo. Seu pré-lançamento ocorreu em novembro de 2025, durante a COP30, em Belém, justamente num momento em que os olhos do mundo estavam voltados para a Amazônia e para as discussões sobre clima, território e povos originários. A publicação também foi apresentada no Festival 3i de Jornalismo, em maio, e a versão digital em 31 de julho, na Abraji (Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo). Naquele momento, a discussão já apontava para uma questão fundamental: não basta aumentar a presença dos povos indígenas nas notícias. É preciso mudar a forma como essa presença acontece.
O jornalismo brasileiro tem uma dívida histórica com essa perspectiva. Não porque tenha necessariamente faltado informação, mas porque muitas vezes faltou escuta. E escutar não significa simplesmente colocar um indígena diante de um microfone. Significa reconhecer que ele pode ser fonte, jornalista, pesquisador, produtor de conhecimento, comunicador, liderança e autor da própria narrativa. É uma mudança de lugar.
Durante muito tempo, o indígena apareceu na imprensa como personagem. O que o Poranga Marandúa propõe é que ele também esteja na redação, na produção, na decisão editorial e na construção da narrativa. “Por muito tempo, falaram sobre nós sem nos ouvir. Hoje, seguimos ocupando as redações, as universidades, os espaços públicos e os meios de comunicação para dizer, com nossas próprias vozes, quem somos e como queremos ser contados”, resume uma manifestação da Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (Apib) sobre o lançamento.
Há algo profundamente jornalístico nessa frase. Porque o jornalismo, em sua essência, deveria ser justamente o lugar onde diferentes vozes encontram espaço para existir. O Poranga Marandúa não pede que o jornalista abandone sua função de mediador. Pede que ele compreenda melhor a responsabilidade dessa mediação. Que perceba quando uma palavra carrega uma história de preconceito. Que saiba quando uma fonte externa não pode substituir a voz de quem vive determinada realidade. Que compreenda que existem diferentes povos indígenas, diferentes línguas, diferentes culturas e diferentes formas de organização.

Não existe “o indígena”; existem povos
Talvez essa seja uma das primeiras lições que um manual como esse oferece ao jornalismo brasileiro: antes de escrever sobre alguém, é preciso descobrir quem é esse alguém. A própria trajetória da Abrinjor revela que esse movimento já está em curso. O grupo nasceu da percepção de que jornalistas indígenas, apesar de trajetórias muitas vezes isoladas, precisavam se encontrar, trocar experiências e ocupar coletivamente um espaço que historicamente lhes foi negado. A imprensa especializada registrou esse processo e a construção do manual por dezenas de jornalistas indígenas de diferentes povos.
Agora, o Poranga Marandúa chega às redações. E chega com um recado de Luciene Kaxinawá: “A Abrinjor está aqui para somar com um jornalismo brasileiro, avante e nunca mais um jornalismo sem a nossa presença.”
Talvez seja essa a melhor tradução do que aconteceu em Brasília. Não foi apenas o lançamento de um manual. Foi a afirmação de que contar uma história também é uma forma de poder. E que, quando novas vozes entram na redação, não é apenas a história dos povos indígenas que muda. É o próprio jornalismo que começa a se enxergar de outra maneira.
Imagem de abertura: Caio Mota – Coletivo Proteja
