AtibaiaCulturaEventosExclusivasNotícias

Ludodança: cinco décadas de dança, infância e memória pelas mãos de Élsie Monteiro

Livro será lançado neste sábado (29), na Livraria Nobel, e reúne memórias, experiências e reflexões de uma trajetória dedicada à formação pela dança e registra uma metodologia que nasceu da observação das crianças e da liberdade de criar

Osni Dias

Há histórias que começam muito antes de chegar às páginas de um livro. A de Élsie Monteiro da Costa começou há cinco décadas, e há quatro delas nos espaços onde a dança quase não existia, numa Atibaia muito menor do que a cidade de hoje. Essa história foi sendo construída ao longo de décadas entre salas de aula, ensaios, palcos, crianças, jovens, professores, projetos culturais e muitas perguntas sobre como ensinar.

Agora, parte dessa trajetória ganhou forma de livro: “Ludodança – A Arte da Dança na Infância” será lançado neste sábado, 29 de agosto, às 15 horas, na Livraria Nobel, em Atibaia. A publicação reúne memórias, experiências, registros, reflexões e práticas desenvolvidas por Élsie ao longo de sua trajetória como arte-educadora na área da dança. Mais do que um relato autobiográfico ou um manual de exercícios, o livro procura registrar uma maneira de pensar a educação pela dança. Uma metodologia que não nasceu pronta, mas foi sendo construída na prática, muitas vezes justamente porque faltavam referências.

Quando começou a trabalhar com dança em Atibaia, Élsie precisava sair da cidade para buscar formação. Campinas estava entre os destinos. São Paulo vivia, naquele período, um momento de transformação importante na dança, e ela teve contato com professores e pesquisadores que ajudaram a formar seu pensamento sobre o corpo e o movimento. Entre essas referências, ela cita a experiência como aluna de mestres como Cláudio Viana e outros profissionais que marcaram sua formação.

Mas havia uma questão que começava a se impor: como levar aquilo para as crianças? A resposta não seria simplesmente reproduzir o que havia aprendido. “Eu era motivada a criar situações novas para que as crianças entendessem, aprendessem as técnicas, a técnica do balé, que era a principal procura, de uma forma de consciência do movimento”, conta. É nesse ponto que a trajetória pessoal de Élsie começa a se transformar em método: a criança no centro.

Élsie conta que seu interesse maior nunca esteve simplesmente em reproduzir uma imagem tradicional da bailarina. Seu prazer estava na criação, na coreografia e, sobretudo, na relação de aprendizagem com as crianças. Foi dessa experiência que nasceu a Ludodança.

O termo surgiu nos anos 1980, em meio a um período de intensa experimentação. Élsie trabalhava em espaços que lhe permitiam criar, escrever e testar novas possibilidades. Havia um detalhe que, para uma bailarina, não era detalhe: o chão. O espaço tinha um piso de tacos que encantou Élsie. Era sobre aquele chão que ela dava aulas, experimentava movimentos, pensava e criava. Depois, sentava-se diante da máquina de escrever para registrar as ideias que surgiam.

Seu trabalho já não correspondia à imagem convencional da aula de balé em que a criança simplesmente reproduz movimentos. Havia pesquisa, experimentação e criatividade. Era preciso, então, encontrar uma palavra que ajudasse a explicar aquilo. “Eu falava que o importante era considerar o lúdico das crianças. E aí veio essa palavra: Ludodança.” O que começou como uma tentativa de nomear uma prática acabou se transformando em conceito. A Ludodança parte da compreensão de que o processo de aprendizagem não precisa começar por uma fórmula pronta. O educador pode observar a criança, perceber suas respostas, seu corpo, sua maneira de experimentar e, a partir daí, construir caminhos.

No livro, essa experiência aparece não como uma receita a ser repetida, mas como um conjunto de pistas. As práticas e sugestões podem ser adaptadas a diferentes contextos, sempre dependendo da criatividade de quem se dispõe a experimentar. É uma concepção que desloca também o lugar do professor. Para ensinar, é preciso observar. Para conduzir, é preciso estar aberto ao que a criança apresenta.

A dança que fica
Uma das histórias que Élsie guarda para representar esse processo é a de Yasmin, que aparece na capa do livro. Yasmin chegou ao Garatuja ainda pequena, com cerca de quatro anos e meio. Passou por diferentes experiências: Ludodança, balé, sapateado e outros projetos desenvolvidos ao longo dos anos. Mais tarde, estudou dança e retornou para participar de trabalhos de formação e monitoria nas escolas. Hoje, cursa Educação Física na Universidade de São Paulo.

Para Élsie, a história de Yasmin representa justamente aquilo que pode acontecer quando uma criança encontra espaço para desenvolver sua própria linguagem. “Não naquele modelo formatado de bailarina que tem que ter o mesmo corpo, a mesma coisa. Aqui, no Garatuja, a gente considera corpos diferentes, situações diferentes.” Outros nomes aparecem nessa memória, como Keo e Taiana Ferraz, entre tantos alunos que passaram pelos projetos.

A questão, para Élsie, nunca foi apenas ensinar técnica. Era desenvolver expressividade, técnica e também uma perspectiva profissional. Essa preocupação ajuda a compreender a dimensão do projeto “Linguagens da Dança”, desenvolvido em Atibaia entre 2013 e 2018 e posteriormente retomado depois da pandemia. A proposta procurava, entre outras coisas, criar um campo de trabalho para profissionais da dança na cidade.

O projeto chegou a integrar o calendário municipal, a Lei de Diretrizes Orçamentárias e o Plano Municipal de Cultura. Hoje, porém, deixou de receber o apoio que permitia sua continuidade. Para Élsie, a interrupção representa mais do que a perda de uma atividade cultural. “O maior prejuízo que eu acho que a gente tem é o prejuízo no investimento humano.”

A dança exige tempo. O corpo precisa de tempo. A expressão precisa de tempo. A formação de um artista também. Quando um processo é interrompido justamente quando os alunos começam a se desenvolver, diz Élsie, alguns desistem porque deixam de enxergar uma perspectiva para continuar. É uma questão que ganha ainda mais importância diante das mudanças que vêm sendo discutidas para o ensino de arte nas escolas e da necessidade de profissionais especializados.

Não basta, observa ela, ter um título. O conhecimento da dança não está apenas no papel. Está no corpo, na experiência corporal e na capacidade de transmitir esse conhecimento. É uma reflexão que conversa diretamente com o espírito do livro.

Memória de uma cidade
“Ludodança – A Arte da Dança na Infância” também é um livro sobre os lugares onde a cultura aconteceu em Atibaia. Élsie recupera experiências desenvolvidas em diferentes espaços da cidade, entre eles a Biblioteca Municipal, onde realizou, em 1987, aquela que considera a primeira oficina pública de dança de Atibaia. A experiência com a Biblioteca também aproximou dança, leitura e expressão. Ela chegou a preparar uma lista de livros sobre dança para o então bibliotecário Júlio, que ajudou a ampliar esse acervo. Vieram depois experiências em escolas e outros espaços.

Ao recordar essa história, Élsie faz questão de lembrar pessoas que, segundo ela, tiveram visão para impulsionar projetos culturais e educacionais. É uma característica que atravessa sua fala: a memória individual nunca está completamente separada da memória coletiva. O livro registra também experiências ligadas à cultura brasileira, às danças tradicionais e às Congadas Mirins realizadas nas escolas dentro do projeto Linguagens da Dança. Para Élsie, essa aproximação entre cultura brasileira, pesquisa corporal e formação técnica fazia parte de uma concepção mais ampla de educação. É uma memória que agora permanece também em fotografias.

As imagens reunidas no livro registram pessoas que passaram pelo Garatuja, muitas delas crianças quando começaram e adultos quando retornaram. São registros de processos criativos, espetáculos e experiências que, para além do palco, permaneceram na trajetória de quem participou.

Um livro para continuar
Élsie levou décadas para chegar ao livro. Talvez porque fosse necessário primeiro viver aquilo que agora pode ser organizado em palavras. A obra reúne uma cronologia de experiências, registra quando determinadas práticas foram criadas, em que circunstâncias surgiram e como foram sendo transformadas. Há capítulos dedicados à história, aos espaços, ao balé, à consciência corporal, aos processos criativos e às experiências realizadas em Atibaia. Há também propostas que podem ser retomadas por professores, artistas e profissionais da dança.

Mas o livro não parece querer encerrar uma experiência. Ao contrário. Seu propósito é abrir possibilidades para que outras pessoas possam experimentar. Essa talvez seja a característica mais coerente com a trajetória de Élsie: aquilo que começou pela falta de referências transformou-se em uma busca permanente por novas formas de ensinar. E agora ganha páginas para continuar circulando.

Detalhe do livro “Ludodança – A Arte da Dança na Infância”

“Ludodança – A Arte da Dança na Infância” integra o projeto “Metodologias e Formação em Artes Plásticas, Dança e Artes Cênicas”, proposto pelo Instituto de Arte e Cultura Garatuja e contemplado por edital da Lei Paulo Gustavo.

O lançamento acontece neste sábado, 29 de agosto, às 15h, na Livraria Nobel de Atibaia, na Avenida Lucas Nogueira Garcez, 1921, Jardim Paulista. Talvez seja simbólico que um livro dedicado à infância termine convidando o adulto a reencontrar em si o estado lúdico que um dia conheceu.

Élsie passou décadas ensinando crianças a perceber o próprio corpo. Agora, ao registrar essa história, deixa para outros educadores uma pergunta que parece estar no centro de toda a sua trajetória: o que pode acontecer quando, antes de ensinar uma criança a dançar, o adulto se dispõe a olhar o mundo um pouco mais perto de onde ela está?

Evento: Lançamento de livro
“Ludodança – A Arte da Dança na Infância”
Quando: Sábado, às 15h
Onde: Livraria Nobel de Atibaia
Endereço: Avenida Lucas Nogueira Garcez, 1921, Jardim Paulista.
O primoroso projeto gráfico é de autoria de Marcio Emilio Zago