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Atibaia está preparada para a mudança climática?

A cidade já convive com chuvas intensas, calor, alagamentos e áreas de risco. Mas enfrentar uma emergência não é o mesmo que evitar que ela se transforme em desastre

Osni Dias

Há perguntas que uma cidade precisa fazer antes que a próxima chuva chegue. Onde a água vai passar? Quais áreas estão mais vulneráveis? Quantas pessoas vivem em locais sujeitos a alagamentos ou deslizamentos? A infraestrutura foi pensada para o clima que temos hoje — e para aquele que está por vir? Atibaia já conhece algumas dessas respostas. Conhece também o outro lado da equação: o trabalho da Defesa Civil, o monitoramento dos rios, os planos de contingência, os alertas, os equipamentos e a mobilização de equipes quando uma situação de emergência se aproxima.

Mas existe uma pergunta maior por trás de tudo isso: Atibaia está preparada para responder a um evento extremo, mas está igualmente preparada para reduzir os riscos antes que ele aconteça?

É a partir dessa pergunta que o Correio de Atibaia inicia uma série de reportagens sobre clima, cidade, saúde, desigualdade e prevenção. Não se trata de prever o fim do mundo. Tampouco de transformar cada temporal em uma ameaça extraordinária. Trata-se de compreender uma mudança que já desafia cidades de todo o planeta e que coloca municípios como Atibaia diante de uma tarefa que combina ciência, planejamento urbano, infraestrutura, meio ambiente, saúde pública e participação da população.

O clima não é a mesma coisa que o tempo
Uma das primeiras confusões quando se fala em mudança climática está justamente na diferença entre tempo e clima. O tempo é aquilo que acontece hoje: uma chuva forte, uma tarde de calor, uma frente fria, uma tempestade. Já o clima é observado em períodos muito mais longos. As previsões climáticas sazonais trabalham com referências históricas e permitem identificar tendências para determinados períodos, enquanto a previsão meteorológica procura indicar as condições do tempo em uma escala mais curta.

O meteorologista Bruno Bainy, do Cepagri/Unicamp, chama atenção para essa diferença. Segundo ele, as referências climatológicas utilizam séries de aproximadamente 30 anos para estabelecer padrões. Quando uma previsão aponta temperaturas acima da média por determinado período, portanto, não está dizendo simplesmente que haverá um ou outro dia quente, mas indicando uma tendência que pode significar períodos prolongados de calor ou ondas de calor.

Para os próximos meses, Bainy aponta a possibilidade de temperaturas acima da média e de episódios de chuva mais intensa e localizada. Eventos de grande impacto, porém, continuam sendo difíceis de prever com precisão, principalmente quando são muito localizados, como tempestades severas, microexplosões e tornados. É justamente aí que começa o problema para uma cidade. Se não é possível saber exatamente onde e quando ocorrerá cada evento extremo, é possível — e necessário — conhecer os lugares e as pessoas mais vulneráveis a eles.

Atibaia já sente os efeitos
Moradora de Atibaia desde os cinco anos de idade, a pesquisadora Samantha Proença relata uma percepção que também aparece no cotidiano de muitas pessoas: verões mais quentes, noites que refrescam menos, períodos de calor mais prolongados e episódios de chuva intensa.

A percepção individual, por si só, não é suficiente para medir a mudança climática de uma cidade. Para isso são necessários dados meteorológicos e séries históricas. Mas ela ajuda a colocar o fenômeno em uma dimensão concreta: aquela que acontece na rua, dentro das casas, nos bairros e no corpo das pessoas.

Os estudos apresentados por Samantha apontam que Atibaia está exposta a riscos associados a chuvas intensas, inundações e deslizamentos. Dados do Painel Cidades do AdaptaBrasil também apontam diferentes níveis de risco relacionados à saúde, à segurança hídrica e energética. O conceito utilizado pela ciência climática ajuda a entender por que simplesmente saber que uma chuva forte pode acontecer não basta. Existe a ameaça — a possibilidade de um determinado evento ocorrer. Existe a exposição — quem e o que está no caminho desse evento. E existe a vulnerabilidade — a capacidade que pessoas, comunidades e estruturas têm de enfrentar o impacto e se recuperar dele (ver gráfico da “flor de risco”, abaixo).

Representação do risco de ocorrência de um desastre como produto entre perigo (ou ameaça), exposição e vulnerabilidade *

Uma mesma chuva, portanto, não produz necessariamente o mesmo resultado para todos. Uma família que mora em uma área segura, tem automóvel, recursos financeiros e acesso rápido a serviços públicos possui condições muito diferentes daquela que vive próxima a um rio ou em uma encosta e não tem recursos para deixar a casa, reconstruir o que perdeu ou simplesmente passar alguns dias sem trabalhar.

É nesse ponto que a discussão sobre clima deixa de ser apenas ambiental. Ela passa a ser também uma discussão sobre cidade e desigualdade.

A emergência começa antes da emergência
A Defesa Civil de Atibaia conhece essa realidade de perto. O diretor municipal Carlos Henrique de Carvalho, o Carlão, explica que o município possui áreas historicamente afetadas por enchentes, alagamentos e movimentos de massa. O trabalho envolve monitoramento, orientação da população, articulação entre diferentes secretarias e acionamento de estruturas de emergência. O município também dispõe de Plano de Contingência e de um Gabinete de Crise para situações que exigem uma mobilização maior.

Nos dias que antecederam uma recente previsão de chuvas intensas, a Prefeitura informou ter reforçado o monitoramento de áreas de maior risco, dos níveis do Rio Atibaia e da represa da Usina, além de manter articulação com a Defesa Civil do Estado. Também informou a realização de reunião entre diferentes secretarias para alinhar medidas preventivas e a manutenção do Gabinete de Crise.

Em outra iniciativa recente, Atibaia reuniu representantes de municípios das regiões de Bragança Paulista e do Circuito das Águas para discutir um protocolo de apoio regional da Defesa Civil. A proposta prevê que municípios possam mobilizar equipes, equipamentos, materiais e suporte técnico quando os recursos locais forem insuficientes. São medidas importantes porque uma emergência não respeita limites administrativos.

Uma chuva que atinge uma cidade pode afetar rios, estradas, encostas e estruturas que se relacionam com municípios vizinhos. Da mesma forma, um desastre de grandes proporções pode exigir recursos que uma única cidade não possui. A Prefeitura, portanto, apresenta uma estrutura voltada à resposta e à prevenção de emergências. A questão que esta série pretende investigar é um passo anterior: quanto dessa preparação consegue efetivamente reduzir o risco antes que a emergência aconteça?

Quando a cidade cresce, o risco também pode crescer
Atibaia mudou. A ocupação urbana avançou, novos bairros surgiram, áreas antes pouco ocupadas passaram a receber moradias e empreendimentos. O problema é que o território não muda sozinho. Quando uma área é impermeabilizada, quando a vegetação desaparece, quando cursos d’água são alterados ou quando uma construção ocupa um local inadequado, a cidade também modifica a maneira como a água circula e como o calor se distribui.

Carlão chama atenção para um fenômeno particularmente importante: uma área que ontem não apresentava risco pode passar a apresentar risco amanhã, justamente em razão da transformação urbana. A pesquisadora Samantha Proença aponta para soluções que podem ajudar a enfrentar esse desafio, como jardins de chuva, parques lineares, telhados verdes e estratégias de “cidade-esponja”, capazes de aumentar a infiltração da água e reduzir os impactos das chuvas. Não são soluções mágicas. Mas mostram que adaptação climática não precisa significar apenas obras emergenciais depois de um desastre. Pode significar também planejar a cidade de outra maneira.

A sombra também é uma questão climática
Em uma cidade que enfrenta temperaturas mais elevadas, árvores deixam de ser apenas um elemento paisagístico. Elas produzem sombra, ajudam a reduzir a temperatura e contribuem para o conforto térmico. Mas essa proteção não está distribuída igualmente pelo território. A bióloga e pesquisadora Raquel Costa da Silva chama atenção para essa dimensão da chamada justiça climática. Famílias de maior renda podem escolher áreas mais seguras, utilizar sistemas de climatização, deslocar-se de automóvel ou buscar outros espaços durante períodos extremos. Quem tem menos recursos possui menos alternativas. A ausência de árvores em determinados bairros, portanto, pode representar muito mais do que uma diferença estética entre regiões da cidade. Pode significar uma diferença na exposição ao calor.

No Jardim Imperial, Raquel encontrou um exemplo que ajuda a visualizar essa desigualdade. O bairro possui vegetação em determinados pontos, mas também apresenta áreas com pouca sombra. A Praça do Migrante Nordestino, segundo seu relato, é uma grande área concretada que pode se tornar excessivamente quente para permanência, especialmente nos períodos de maior temperatura. A pergunta passa a ser simples: quem consegue escapar do calor e quem precisa enfrentá-lo?

O clima também chega ao corpo
A mudança climática não termina quando a chuva para ou quando a temperatura volta a cair. Ela pode chegar ao sistema de saúde. Doenças transmitidas por vetores, agravamento de problemas respiratórios e cardiovasculares, desidratação, impactos das ondas de calor e consequências psicológicas de eventos extremos fazem parte de uma agenda que aproxima cada vez mais clima e saúde pública.

A pesquisadora Daniela Vianna, Dra. em Ciências Ambientais pela USP, atua na área de comunicação climática e saúde planetária, e trabalha justamente nessa relação entre as transformações ambientais, a saúde e as desigualdades. Essa perspectiva amplia novamente a pergunta. Preparar uma cidade para a mudança climática não significa apenas construir galerias, limpar córregos ou retirar pessoas de uma área de risco. Significa também pensar em idosos, crianças, pessoas com deficiência, trabalhadores expostos ao calor, pessoas com doenças preexistentes e comunidades que possuem menor capacidade de recuperação depois de um desastre.

Antes da chuva, existe uma escolha
A jornalista e pesquisadora Tânia Pacheco, referência brasileira nos estudos sobre racismo ambiental e justiça ambiental, leva a discussão para uma dimensão ainda mais profunda. Para ela, falar em justiça climática significa reconhecer que os impactos ambientais não são distribuídos igualmente pela sociedade. A capacidade de se proteger, deixar uma área de risco, reconstruir uma casa ou recuperar uma fonte de renda depende das condições econômicas e sociais de cada pessoa. Por isso, prevenção não pode ser pensada apenas como uma resposta técnica. É também uma decisão política.

Uma cidade pode esperar a chuva, contar os prejuízos e depois reconstruir. Ou pode utilizar informações científicas, mapas de risco, planejamento urbano e participação da população para tentar impedir que determinados problemas se transformem em tragédias. A diferença entre uma coisa e outra pode parecer pequena enquanto o céu está azul. Durante uma tempestade, pode ser enorme.

Uma cidade diante de uma pergunta
Atibaia não começa esta discussão do zero. Existe Defesa Civil, existe monitoramento, existem planos de contingência, existem equipes treinadas, existe conhecimento científico produzido por pesquisadores e existem experiências de moradores que conhecem, na prática, os lugares onde a água sobe, onde o calor aperta e onde uma encosta preocupa.

Também existem problemas. Alguns são antigos. Outros podem estar surgindo justamente porque a cidade continua crescendo e porque as condições climáticas estão mudando. É por isso que esta série não pretende responder simplesmente se Atibaia está ou não preparada. A realidade é mais complexa. Atibaia está se preparando para responder aos eventos extremos. A pergunta que permanece é se está conseguindo, na mesma velocidade, preparar seu território para que esses eventos provoquem menos danos.

Nas próximas reportagens, o Correio de Atibaia vai ouvir meteorologistas, pesquisadores, profissionais da saúde, especialistas em justiça climática e aqueles que estão na linha de frente quando a emergência chega. Porque talvez a melhor maneira de saber se uma cidade está preparada para o futuro seja observar não apenas como ela reage quando a água sobe. Mas o que ela faz quando ainda há tempo para evitar que a água cause tanto estrago.

* Representação do risco de ocorrência de um desastre como produto entre perigo (ou ameaça), exposição e vulnerabilidade:

● Perigo (ou Ameaça): Evento natural ou fisicamente induzido pelo ser humano, ou tendência que pode causar perda de vidas, ferimentos ou outros impactos
na saúde, bem como perdas e danos à propriedade, infraestrutura, meios de subsistência, prestação de serviços, ecossistemas e recursos ambientais.
● Exposição: Refere-se à presença de pessoas, meios de subsistência, espécies ou ecossistemas; funções, serviços e recursos ambientais; infraestrutura ou recursos econômicos, sociais ou culturais em locais e configurações onde podem ser afetadas adversamente pelas ameaças.
● Vulnerabilidade: Refere-se à propensão ou pré-disposição a que um indivíduo, comunidade ou sistema possa ser afetado de maneira adversa – incluindo fatores físicos, sociais, econômicos e ambientais. A vulnerabilidade também é determinada pela capacidade adaptativa.
● Risco: O potencial de consequências adversas (impactos) para sistemas humanos ou ecológicos, reconhecendo a diversidade de valores e objetivos
associados a esses sistemas. No contexto das mudanças climáticas, os riscos podem surgir dos impactos potenciais das mudanças climáticas, bem como das respostas humanas às mudanças climáticas. No contexto dos impactos das mudanças climáticas, os riscos resultam de interações dinâmicas entre perigos
relacionados ao clima com a exposição e a vulnerabilidade do sistema humano ou ecológico afetado por essas ameaças.
Fonte: https://portal-adm.campinas.sp.gov.br/sites/default/files/secretarias/arquivos-avulsos/142/2024/04/04-150244/5.%20Avalia%c3%a7%c3%a3o%20de%20Risco%20Clim%c3%a1tico.pdf