Para Daniela Vianna, o clima também adoece
Pesquisadora em saúde planetária e comunicação climática, Daniela Vianna afirma que a crise climática já chegou ao cotidiano e defende que municípios preparem seus sistemas de saúde para o que vem pela frente
Osni Dias
Durante muito tempo, falar em mudança climática significava falar de geleiras, ursos-polares, desmatamento e aumento da temperatura do planeta. Hoje, segundo Daniela Vianna, essa distância já não existe. A crise climática chegou à vida cotidiana. E chegou também aos consultórios, hospitais e serviços de saúde.
Jornalista, Doutora em Ciências Ambientais pela USP e pesquisadora em saúde planetária e comunicação climática, Daniela chama atenção para um problema que considera histórico no Brasil: a baixa percepção de riscos. Para ela, isso começa a mudar à medida que eventos extremos se tornam mais frequentes e intensos e passam a aparecer quase diariamente nas notícias. “Mudanças climáticas não são mais uma questão de ameaça ao urso polar. Ela já está acontecendo aqui e agora.”
A frase ajuda a mudar o foco da discussão. Não estamos falando apenas do futuro do planeta. Estamos falando de pessoas que já enfrentam calor extremo, enchentes, piora da qualidade do ar e alterações na circulação de doenças.
Quando o clima entra na saúde
Os efeitos podem ser diretos ou indiretos. Entre eles estão o aumento ou agravamento de doenças como enteroviroses, hepatites e leptospirose, além da ampliação da transmissão de arboviroses como dengue, malária, zika e chikungunya. Daniela também chama atenção para os efeitos do estresse térmico e da poluição do ar sobre doenças cardiovasculares e respiratórias. Isso não significa que uma pessoa ficará doente simplesmente porque a temperatura aumentou alguns graus. O problema está na combinação de fatores.
Calor extremo pode ser especialmente perigoso para idosos, crianças e pessoas que já convivem com determinadas condições de saúde. Chuvas intensas podem favorecer alagamentos, contaminação da água e aumento de doenças. A poluição e o calor podem agravar problemas respiratórios. A mudança climática, portanto, não cria apenas um problema ambiental. Ela aumenta a pressão sobre estruturas que já precisam atender uma população inteira. E isso leva a outra pergunta: as cidades estão preparando seus sistemas de saúde para essa nova realidade? Veja aqui o Relatório da Situação das Arboviroses em Atibaia, a semana epidemiológica 35/2026 e a situação atual do município.
O município precisa ter seu próprio plano
Na avaliação de Daniela, todos os municípios precisam construir planos de mitigação, adaptação e resiliência climática, levando em conta suas características e necessidades locais. Não existe uma receita única. Uma cidade com forte atividade agrícola terá preocupações diferentes de uma cidade industrial. Municípios com áreas sujeitas a enchentes terão prioridades diferentes daqueles mais expostos a secas, incêndios ou ondas de calor. O importante é que o planejamento exista.
Daniela chama atenção para iniciativas federais que já oferecem instrumentos e orientações para os municípios. O problema, segundo ela, é transformar conhecimento disponível em ação local. Existe uma lacuna entre aquilo que a ciência produz e aquilo que chega às políticas públicas. É necessário formar equipes técnicas capazes de transformar dados em informação útil para a tomada de decisão. Também é preciso aproximar as diferentes secretarias. Clima não é assunto apenas do Meio Ambiente, ele envolve Saúde, Educação, Obras, Planejamento, Habitação, Agricultura, Defesa Civil e outras áreas. Cada uma tem uma parte do problema e, portanto, precisa fazer parte da solução.

Informação também é prevenção
A comunicação aparece como uma ferramenta importante nesse processo. Se as pessoas não entendem o risco, dificilmente mudarão comportamentos ou cobrarão políticas de prevenção. Daniela defende justamente essa aproximação entre ciência, comunicação e população. O profissional de saúde, por exemplo, pode ser um agente importante de prevenção porque está em contato direto com as pessoas e pode ajudar a explicar os impactos que a crise climática terá sobre a saúde. É uma espécie de “alfabetização climática”. Não basta saber que a temperatura está aumentando. É preciso entender o que isso significa para a cidade, para o bairro, para a casa, para a escola e para a saúde. Sobre o gráfico acima, a informação é que, esse ano, até essa semana, 1191 casos de Dengue foram registrados. No ano passado, até essa semana, 4114 tinham sido registrados. Veja aqui o Boletim Epidemiológico mais recente, publicado em 07/08/2026 pelo Ministério da Saúde.
O que está faltando?
Daniela é direta quando perguntada se o principal problema é falta de conhecimento, recursos, planejamento ou vontade política. Para ela, o que falta é vontade política. Conhecimento existe. Tecnologias para uma sociedade de baixo carbono existem. Há recursos públicos e fundos internacionais. Também existem instrumentos para ajudar gestores a construir planos municipais de adaptação. O problema é transformar tudo isso em decisão. E há uma razão econômica para fazer isso.
Prevenir custa menos do que reconstruir depois de um desastre. Adaptar uma cidade custa menos do que perder vidas, casas, comércio, infraestrutura e atividades econômicas. No fundo, a questão é a mesma que apareceu na conversa com a Defesa Civil: quanto antes uma cidade agir, menor tende a ser o preço da emergência. Mas existe ainda outra questão. Mesmo quando duas pessoas vivem na mesma cidade e enfrentam a mesma onda de calor ou a mesma chuva, elas podem não estar nas mesmas condições para enfrentar o problema.
É essa diferença que será o tema da próxima reportagem.
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