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Encontro das quatro Congadas de Atibaia muda de local após aumento da procura

Evento, que reunirá os ternos Verde, Azul, Vermelha e Rosa, será realizado na escola Florêncio Pires de Camargo e na Praça do Santo Cruzeiro; encontro também marca a força de uma tradição transmitida entre gerações

Osni Dias

O encontro que reunirá as quatro Congadas de Atibaia no dia 17 de outubro terá um novo endereço. A organização decidiu transferir o evento da Capela Nossa Senhora Aparecida, conhecida como Capela do Lúcio, para a escola Florêncio Pires de Camargo e a Praça do Santo Cruzeiro, no Centro. A confirmação da cessão do novo espaço pela Prefeitura aconteceu durante uma entrevista do Correio de Atibaia com José Alvim, provedor da Irmandade do Santíssimo Sacramento de Atibaia e um dos responsáveis pela organização.

A mudança ocorreu depois que a procura pelo encontro superou as expectativas iniciais. A organização imaginava receber cerca de 100 pessoas, mas a divulgação do evento nas redes sociais provocou uma adesão muito maior. Com a previsão de reunir participantes das quatro Congadas, a preocupação passou a ser garantir segurança e conforto ao público. “A capela é uma capela pequena, e o espaço de trás é um espaço que é pequeno também, não dá para receber a quantidade de pessoas”, explicou Alvim. Ele também destacou o movimento intenso de veículos na Avenida Jerônimo de Camargo e os riscos relacionados ao trânsito.

A ligação do prefeito aconteceu no meio da entrevista ao Correio de Atibaia. Alvim recebeu a confirmação de que a Praça Florêncio Pires seria cedida para a realização do encontro. “Você pode até dar isso como um furo aí”, disse ele, logo depois de receber a notícia.

O novo espaço, além de ser maior, possui área externa e estrutura coberta, permitindo a realização da programação mesmo em caso de chuva. Também é um lugar tradicionalmente ligado às atividades das Congadas durante o Ciclo Natalino.


A história permanece
A mudança de endereço não apaga a importância simbólica da Capela do Lúcio. Pelo contrário. A escolha inicial tinha uma razão histórica: a pequena capela está ligada à memória da Congada Verde. Segundo Alvim, a capela surgiu em uma antiga olaria que existia na região, conhecida como olaria do Lúcio. Naquele período, alguns ternos de Congo utilizavam o espaço para ensaios. Entre eles estava o Terno Verde. A região ainda era marcada pela passagem da antiga linha férrea de Atibaia.

A capela foi posteriormente doada por Lúcio à Paróquia São João Batista e, depois de uma reforma completa, passou aos cuidados da Irmandade do Santíssimo Sacramento. A intenção da organização era também apresentar novamente o espaço à população. A relação entre lugar, memória e tradição ajuda a explicar a importância do encontro. Reunir os quatro ternos no espaço onde congadeiros se reuniam e ensaiavam seria uma forma de fazer a história retornar ao seu próprio território.

A dimensão da tradição, entretanto, vai muito além de um lugar físico. Para José Alvim, o que mantém as Congadas vivas é principalmente a fé transmitida dentro das famílias. “A fé que passa de avó para filho e para neto é a fé que está dentro das pessoas”, afirmou. Para ele, a presença de crianças e jovens nos ternos é um dos sinais mais importantes dessa continuidade. É uma tradição que, na visão do provedor da Irmandade, não sobrevive apenas porque é antiga, mas porque continua fazendo sentido para quem participa dela. Fé, família, memória e pertencimento se misturam.

A própria história de Alvim ajuda a entender essa dimensão. Ele cresceu convivendo com as Congadas na casa dos avós, na região da Rua José Alvim (o casarão de esquina com a José Bim). Os ternos faziam ensaios no quintal da família, enquanto seus avós ajudavam a preparar alimentos para os congadeiros. “Eu me lembro de abrir a janela e ver os Ternos de Congo. Isso era comum”, recorda. Hoje, ele procura transmitir essa experiência aos filhos e ao neto. Uma tradição que também é história.

As quatro Congadas – Verde, Azul, Vermelha e Rosa – preservam uma manifestação na qual a dimensão religiosa e a cultural não aparecem separadas. Para Alvim, os rituais, as músicas e as danças carregam significados que atravessam gerações. Ele cita, por exemplo, a representação da luta entre o bem e o mal presente nas músicas e nas danças em que os congadeiros se enfrentam com espadas.

Mas existe também uma dimensão histórica mais profunda. Alvim lembra que os Ternos do Congo não podiam entrar na Igreja Matriz no passado e relaciona essa exclusão à condição de escravizados. A presença das Congadas, portanto, também carrega a memória da população negra e de sua trajetória religiosa e cultural em Atibaia. Ele cita ainda a Igreja do Rosário e a região da Rua Treze de Maio como espaços relacionados a essa história. É nesse ponto que a manifestação deixa de ser apenas uma celebração religiosa e passa a ser também um documento vivo da própria formação da cidade. “Ela é muito rica. É folclórica e cultural, com certeza”, resume Alvim.


O desafio de manter a tradição
A permanência dessa história, porém, não acontece automaticamente. Uma das preocupações apontadas por Alvim está relacionada à dificuldade de encontrar famílias dispostas a assumir a responsabilidade de serem festeiras do Ciclo Natalino. Segundo ele, a função envolve muito trabalho e também uma responsabilidade financeira significativa. É nesse contexto que ele destaca o papel da Atifé – Associação de Apoio ao Folclore e Tradições Religiosas de Atibaia – como uma estrutura de apoio aos festeiros e às manifestações tradicionais. A ideia, segundo ele, é criar mecanismos que permitam que as celebrações tenham continuidade. O bingo beneficente previsto para o dia 17 faz parte dessa tentativa de arrecadar recursos para apoiar o Ciclo Natalino.

Para ele, preservar essas manifestações exige planejamento, recursos e, sobretudo, compreensão de seu significado. “São organizações que a gente não pode deixar minguar”, afirma, referindo-se tanto às Congadas quanto à própria Irmandade do Santíssimo Sacramento.

Além do encontro
É por isso que o evento do dia 17 ganha um significado maior do que uma simples apresentação das quatro Congadas. Será uma oportunidade para colocar lado a lado quatro grupos que continuam transmitindo seus saberes, seus ritmos, suas rezas e suas memórias às novas gerações. E também para aproximar a população de uma tradição que, embora faça parte da história de Atibaia, nem sempre é conhecida em toda a sua dimensão.

Alvim lembra de outra experiência que, segundo ele, demonstra a força que essas manifestações podem alcançar. Em 2015, quando foi festeiro, acompanhou uma Cavalhada que reuniu milhares de cavalos pelas ruas centrais da cidade. Para ele, acontecimentos dessa dimensão também poderiam ser melhor aproveitados como patrimônio cultural e turístico de Atibaia. No fundo, porém, a lembrança que parece resumir melhor a relação de Alvim com as Congadas é muito mais íntima. “Eu enxergo ali toda a iniciativa de tudo. Quantas vezes meu avô e minha avó fizeram. Eu enxergo a minha cidade ali dentro.” É essa cidade, feita de fé, memória, família e tradição, que estará reunida no dia 17 de outubro.

Encontro das Congadas de Atibaia*
17 de outubro de 2026, sábado
Das 9h às 12h
Praça Florêncio Pires, Centro
Participam as Congadas Verde, Azul, Vermelha e Rosa.

* A programação prevê café da manhã, ensaio dos quatro ternos, terço, bingo beneficente em apoio ao Ciclo Natalino e ritual das Congadas.
O evento celebra a tradição, a fé e a cultura de Atibaia, convida a comunidade a participar desse momento de união e devoção.