“Amor para todos, ódio para ninguém”: imã paquistanês defende convivência entre religiões
Vice-presidente da Comunidade Ahmadia Muçulmana do Brasil, Ihtsham Ahmad Moman explica as diferenças de sua corrente do Islã, rejeita a violência em nome da religião e fala sobre a perseguição enfrentada por seus seguidores no Paquistão.
“Não precisamos vencer os corpos, precisamos vencer os corações.” A frase do imã Ihtsham Ahmad Moman resume a mensagem que o missionário paquistanês procura transmitir ao falar sobre religião, intolerância e convivência entre diferentes culturas. Vice-presidente da Comunidade Ahmadia Muçulmana do Brasil, ele defende que a fé deve aproximar as pessoas, e não servir de justificativa para a violência. A proposta está sintetizada no lema da comunidade: “Amor para todos, ódio para ninguém”. Em entrevista ao Correio de Atibaia, Moman explica as crenças que distinguem a Comunidade Ahmadia de outras correntes do Islã, questiona a associação entre a religião muçulmana e o terrorismo e relata a perseguição sofrida por seus integrantes no Paquistão, seu país de origem.
Fundada em 1889, na Índia, por Mirza Ghulam Ahmad, a Comunidade Ahmadia acredita que seu fundador foi o Messias Prometido, enviado para reavivar a fé e recuperar a espiritualidade entre os muçulmanos. A crença está no centro das divergências com outras correntes islâmicas, especialmente sunitas e xiitas, que não reconhecem a missão religiosa atribuída a Mirza Ghulam Ahmad. Para Moman, a religião precisa recuperar sua capacidade de transformar as pessoas e promover a união. “A religião serve para purificar os corações e trazer a espiritualidade, acabar com os conceitos de egoísmo e individualismo e trazer o conceito do coletivo”, afirma.
A interpretação ahmadia também se distingue pela maneira como compreende a expressão “Selo dos Profetas”, atribuída a Maomé. Para a maioria dos muçulmanos, a expressão significa que não haverá outro profeta depois dele. Os ahmadis entendem que Maomé encerrou o ciclo dos profetas portadores de uma nova lei divina, mas que pode surgir um reformador espiritual subordinado aos ensinamentos do Alcorão.
“A religião serve para purificar os corações e trazer a espiritualidade, acabar com os conceitos de egoísmo e individualismo e trazer o conceito do coletivo”
É nesse contexto que a comunidade reconhece Mirza Ghulam Ahmad como o Messias Prometido e o Mahdi, figura esperada por diferentes tradições islâmicas para os últimos tempos. Enquanto os ahmadis acreditam que essa missão já se cumpriu, outros grupos muçulmanos aguardam a manifestação do Messias no futuro, frequentemente associada ao retorno de Jesus Cristo.
A fé não deve justificar a violência
A associação entre Islã, violência e terrorismo é uma das questões abordadas pelo missionário. Moman rejeita a ideia de que as ações de grupos extremistas representem os ensinamentos da religião e considera que pessoas e organizações podem utilizar a fé para estimular o ódio e atender a interesses próprios. “Há muçulmanos que matam os outros, mas será que é a religião que fala para matar?”, questiona. O entrevistado compara essa generalização à possibilidade de definir todos os brasileiros ou todos os cristãos pelas ações violentas de alguns indivíduos. Para ele, é necessário distinguir os princípios religiosos das atitudes de quem afirma agir em nome deles.
Na interpretação defendida pela Ahmadia, as divergências religiosas devem ser enfrentadas por meio do conhecimento, do diálogo e da argumentação. Ao comentar as profecias relacionadas às guerras entre crentes e descrentes, Moman afirma que determinadas passagens devem ser compreendidas metaforicamente, e não como uma convocação para conflitos armados contemporâneos. “Hoje precisamos com o argumento, com a palavra”, diz. Ele cita livros e publicações como instrumentos para apresentar ideias e responder às divergências. Em sua avaliação, a violência não é um caminho para conquistar a compreensão do outro.
A posição da comunidade está expressa no lema “Amor para todos, ódio para ninguém”. Mais do que uma frase de divulgação, o princípio resume a maneira como Moman apresenta a missão religiosa dos ahmadis: convencer pelo diálogo, respeitar as diferenças e promover a convivência entre pessoas de diferentes crenças.

A perseguição no Paquistão
A defesa da paz ganha uma dimensão particular diante da situação enfrentada pela Comunidade Ahmadia no Paquistão. Em 1974, uma emenda constitucional passou a classificar legalmente os ahmadis como não muçulmanos. Em 1984, a Portaria XX introduziu novas restrições à manifestação pública de sua identidade religiosa. Determinadas condutas, como se apresentar como muçulmano ou utilizar expressões islâmicas em contextos previstos pela legislação, podem resultar em processos criminais e penas de prisão.
A situação é documentada por organismos internacionais. O Departamento de Estado dos Estados Unidos, em seu relatório sobre liberdade religiosa no Paquistão referente a 2023, descreve as restrições legais impostas à comunidade e registra episódios de violência e ataques a locais de culto. A Human Rights Watch também documenta discriminação, processos baseados em leis contra os ahmadis e episódios de violência. Já a Comissão dos Estados Unidos para a Liberdade Religiosa Internacional acompanha as restrições e os ataques sofridos por minorias religiosas no país.
Um relatório distribuído pela própria Comunidade Ahmadia, com informações referentes a 2022 e 2023, denuncia assassinatos, tentativas de homicídio, acusações consideradas falsas pela comunidade, mortes sob custódia e ataques a locais de culto. O documento também relata censura a publicações religiosas e a sites ligados à comunidade. Os números são atribuídos ao relatório institucional, uma vez que nem todos puderam ser confirmados de maneira independente.
As denúncias também chegaram aos mecanismos internacionais de direitos humanos. Uma comunicação dos procedimentos especiais das Nações Unidas reuniu alegações de violações contra integrantes da Ahmadia, incluindo violência e ataques a locais de culto. O registro demonstra que a situação é objeto de atenção internacional, embora uma comunicação sobre alegações não equivalha, por si só, a uma decisão judicial que comprove individualmente todos os fatos relatados.
Para Moman, a perseguição demonstra que a intolerância pode ocorrer também dentro de uma mesma tradição religiosa, quando grupos rejeitam a identidade ou as crenças de outros. Sua comunidade, que se considera muçulmana, enfrenta justamente essa contradição: reivindica uma identidade religiosa que o Estado paquistanês não reconhece legalmente.
Conviver apesar das diferenças
Ao falar sobre a relação entre religiões, Moman insiste que as diferenças não devem se transformar em motivo de hostilidade. Ele considera que o desconhecimento favorece estereótipos e que o diálogo é necessário para que as pessoas compreendam outras crenças sem abrir mão das próprias convicções.
“Precisamos pregar o amor que nós temos, o respeito que nós temos e conviver com harmonia, mesmo tendo diferentes religiões e diferentes culturas”
A experiência da Comunidade Ahmadia evidencia que a liberdade religiosa não depende apenas da possibilidade de acreditar, mas também do direito de expressar publicamente essa crença, reunir-se para praticá-la e ser reconhecido como parte de uma comunidade religiosa. A mensagem de Moman é direta: a religião deve promover o respeito e a aproximação entre as pessoas. Em vez de procurar vencer quem pensa de maneira diferente, é preciso construir condições para a convivência. “Precisamos pregar o amor que nós temos, o respeito que nós temos e conviver com harmonia, mesmo tendo diferentes religiões e diferentes culturas”, afirma.
A declaração sintetiza o pensamento que o imã procura transmitir ao público brasileiro. Para ele, a paz não exige que todos professem a mesma fé ou compartilhem as mesmas interpretações religiosas. Exige que as diferenças não sejam transformadas em justificativa para o ódio, a violência ou a perseguição.
