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Fátima, um dos primeiros hinos de Renato Russo

Com que Música eu Vou.

Em 1986, enquanto o Brasil tentava aprender a democracia depois de duas décadas de ditadura, Renato Russo já desconfiava dos salvadores. Em Fátima, canção nascida no Aborto Elétrico e gravada pelo Capital Inicial, a crítica não mira apenas o céu. Ela desce à terra, onde o medo, o dinheiro e as ilusões sustentam estruturas de poder que insistem em sobreviver às mudanças de governo.

Os anos 1980 foram marcados pela redemocratização, pela inflação e pela esperança de reconstruir o país. Nos anos 1990, vieram a abertura econômica, as privatizações, a desigualdade persistente e a promessa de modernização. Mudaram os discursos, os planos econômicos e os protagonistas. Mas a velha distância entre quem decide e quem paga a conta continuou presente. Renato Russo cantava sobre aquilo que muitos acreditavam ser uma espera “intervenção divina”. A política brasileira, tantas vezes, transformou essa espera em estratégia, seja eleitoral ou mesmo para controle das massas.

Quatro décadas depois, em 2026, o cenário parece assustadoramente familiar. Parte da sociedade deposita em líderes a expectativa de redenção, como se um voto pudesse substituir a ciência, dados por simples intuições fortes alienadas da participação popular responsável e coletiva. A religião, legítima expressão de fé, também se tornou “instrumento de disputa” quando falsos políticos se apropriam dela e se apresentam como representantes exclusivos da vontade divina. Nesse teatro que ainda não seria de vampiros, questionar o poder vira ofensa, e a crítica, inimiga da própria crença.

Para muito além disso, o paradoxo é que Fátima sobreviveu justamente porque não oferece conforto fácil. Renato Russo, cuja obra atravessou gerações, e segue falando o Brasil que existe, ajudou a transformar o Rock Brasileiro em um espaço de inquietação política e existencial. Do fim do Aborto Elétrico nasceram Legião Urbana e Capital Inicial, duas trajetórias distintas, ligadas por uma origem contestadora. Com raízes, em parte, no Movimento Punk, talvez a provocação mais incômoda da canção permaneça a dita e sonhada espera por milagres daqueles que são proibidos de sonhar e buscar a própria história.

Tolerar velhos problemas em um país jovem democraticamente também é uma escolha. Nenhuma intervenção divina substituirá a coragem de mudar o mundo que nós mesmos construímos. Fátima é sobre quando a política promete milagres e entrega o mesmo mundo. O Brasil de hoje ainda precisa do milagre da realidade que permite a real existência de cada um e de todos ao mesmo tempo.

Bruno Velasco

Empresário com experiência no Segmento de Franquias, 14 anos no Setor Imobiliário e Gestão de Clientes Corporativos há mais de 25 anos. Multiprofissional formado em Comunicação com habilitação em Jornalismo pela UVA – Universidade Veiga de Almeida (RJ), com experiência em palestras, documentário, fotografia, rádio e produção de conteúdo pela Agência ZeroUm, SP.

Foto : Ricardo Junqueira