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Museu João Batista Conti celebra 190 anos com poesia, memória e um alerta necessário à cidade

Programação reuniu artistas, comunidade e lançamento de livro em Atibaia e reforçou a urgência de preservar o patrimônio histórico e valorizar os criadores que ajudam a contar a identidade da cidade

No último sábado (23), o Museu Municipal João Batista Conti recebeu uma programação especial que uniu arte, literatura e memória em torno de seus 190 anos de história. A celebração reuniu a apresentação do projeto Registros Poéticos, das artistas Ana André, do Ateliê Arte Movimento, e Chris Belfort, da Rural.Art, além dos participantes da iniciativa, que propôs um encontro sensível entre observação, técnica e construção de significado a partir do acervo museológico.

O público também pôde visitar a mostra “Memórias de João Conti – uma singela homenagem”, com fotografias e textos dedicados ao fundador do museu. O ponto alto da programação foi o lançamento do livro Museu Municipal João Batista Conti: História, Educação Patrimonial e Sociedade, da professora, pesquisadora e escritora Juliana Gobbe. A publicação foi viabilizada pela Política Nacional Aldir Blanc de Fomento à Cultura, com apoio do Ministério da Cultura e da Prefeitura de Atibaia.

Logo nas primeiras páginas do livro, Juliana Gobbe lembra que a história nem sempre ocorre de forma linear. É preciso, escreve ela, perceber as curvas e as permanências deixadas pelos que vieram antes. Ao perguntar o que são as cidades na atualidade, a autora toca numa questão essencial do nosso tempo: enquanto as telas disputam nossa atenção e a velocidade dos dias caminha ao lado do esquecimento, torna-se ainda mais urgente compreender a memória como instrumento de transformação.

Seu trabalho lança luz sobre esse desafio e reforça a necessidade de um contato profundo com a realidade em suas contradições. A leitura inevitavelmente faz lembrar o saudoso Gilberto Sant’Anna e uma frase que permanece atual pela clareza e força: “A utopia é o combustível da luta”.

Ao longo da obra, Juliana percorre nomes como Jerônimo, Renato Zanoni, Francisco Silveira Bueno, Mário de Andrade e João Batista Conti, costurando reflexões que fazem a cidade ser compreendida como legado histórico e experiência coletiva. A lembrança também dialoga com a urbanista Ermínia Maricato, ao reafirmar que ruas, edifícios e espaços públicos carregam as marcas do tempo e da vida comum. A reportagem do Correio de Atibaia conversou com Juliana sobre o processo de construção da obra e o significado do museu hoje.

“O meu trabalho com o museu e minha aproximação com esse espaço vêm desde a infância. Eu gostava de vir aqui. Depois, em 2018, realizamos um abraço coletivo em defesa do museu e conseguimos reunir pessoas em torno do patrimônio público. A partir dali decidi escrever esse livro, incluindo também reflexões sobre a sociedade em que esse museu está inserido e sobre educação patrimonial, um tema essencial na nossa época.”

A supervisora do museu, Daniele Morais, falou sobre a emoção de acompanhar o encantamento do público mais jovem. “A gente percebe a diferença no olhar das crianças. Muitas entram curiosas, querem descobrir e entender. Poder compartilhar a história da nossa cidade com elas é algo que emociona.” Para Juliana, o vínculo entre museu e novas gerações precisa ser ampliado. Ela destacou que, por meio do projeto realizado com recursos da Lei Aldir Blanc, o museu recebeu dois tablets e dois headphones para proporcionar ao visitante uma experiência imersiva com audiobook sobre sua trajetória.

No projeto Registros Poéticos, Chris Belfort destacou que a arte ajuda a aproximar as pessoas do lugar onde vivem. “É uma forma de perceber com mais atenção a beleza de toda essa trajetória histórica de Atibaia. Foi bonito ver as pessoas mergulhadas no desenho, observando cada detalhe e escolhendo cada peça.” Ana André reforçou que esse processo de imersão transforma percepção em pertencimento. “Quando as pessoas entram nos detalhes e vivem essa experiência, aquilo ganha outro valor. A história deixa de ser distante e passa a ser percebida de forma íntima e concreta.” Outro momento importante foi a singela homenagem a um dos artistas que marcaram a história da cidade: Jamil Scatena, em imagens (acima) de Rita Moura.

Ao completar 190 anos, o Museu Municipal João Batista Conti (que já foi abraçado pela comunidade) reafirma sua importância como espaço de memória, produção artística e pesquisa histórica. Mais do que celebrar a permanência de um prédio ou de um acervo, a programação trouxe à tona algo ainda mais essencial: a necessidade de reconhecer e proteger o patrimônio humano e cultural da cidade.

Fica também um alerta necessário: nenhuma cidade preserva sua identidade relegando museus ao segundo plano. Nenhuma cidade fortalece sua história deixando artistas e agentes culturais à margem. A memória precisa de investimento, de cuidado e de espaço real para existir. Atibaia tem patrimônio, tradição e criadores capazes de traduzir sua própria história com profundidade e originalidade. Cabe compreender que cultura não pode ser tratada como detalhe ou circunstância.

Valorizar o Museu Municipal João Batista Conti e abrir caminhos concretos para os artistas da cidade é um compromisso com o presente, e também com aquilo que Atibaia deseja deixar como legado para o futuro.