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No Caetetuba, um tatame onde crianças aprendem muito mais do que jiu-jítsu

Em Atibaia, projeto social reúne mais de 70 crianças e adolescentes e transforma esporte, disciplina e convivência em ferramentas para a vida

Osni Dias e Mario Gonçalves

Há coisas que uma fotografia consegue dizer antes mesmo que alguém comece a falar. Crianças sentadas no tatame, esperando a orientação dos professores. Outras treinando, algumas concentradas nos movimentos, outras ainda descobrindo o próprio corpo dentro do quimono. Há também quem já tenha aprendido a competir, quem colecione medalhas e também quem esteja apenas começando.

No meio de tudo isso, existe uma coisa que parece atravessar todas as idades: o sentimento de pertencimento. É assim no Complexo Santa Clara, no Jardim Imperial, em Atibaia, que funciona o projeto” Jiu Jitsu Transformando Vidas”, ligado à Associação Social Art Brazilian Jiu-Jitsu. Nascido em 2002, o projeto atende atualmente mais de 70 crianças e adolescentes, entre 5 e 14 anos. Também mantém atividades em Alvinópolis, na Praça da Amada.

No tatame, porém, não há apenas uma aula de esporte. Há uma pequena comunidade. E talvez seja essa a melhor maneira de compreender o que acontece ali: um lugar onde se aprende a cair. Antes de aprender a imobilizar um adversário, a criança precisa aprender a respeitá-lo. Antes de pensar em vencer, precisa descobrir que cair faz parte do aprendizado. E, ao receber uma nova faixa, precisa compreender que cada graduação representa um caminho percorrido.

Mestre Cesar: “cada um se doando e a gente foi seguindo”

O professor César Gianneschi, mestre, faixa-preta e um dos responsáveis pela criação do projeto, está no centro dessa história. Quando tudo começou, em 2002, o espaço era abandonado. “A gente resolveu mudar o lugar, fizemos a pintura, limpamos o espaço, ganhamos ventiladores, e demos início ao projeto”, lembra. O começo foi com muito pouco: “A gente tinha um “tataminho”, um tataminho de criança, cinco milímetros.” A comunidade, porém, aderiu. O projeto cresceu, vieram novos alunos e, com eles, a possibilidade de levar as crianças para competir. Vieram também as primeiras doações de quimonos, parceiros e pessoas dispostas a ajudar. “Foi assim, cada um se doando um pouquinho e a gente foi seguindo”, conta César.

Essa história também explica uma característica importante do projeto. Muitos dos que hoje ajudam nos treinamentos foram alunos do próprio mestre. Aprenderam com ele, avançaram pelas faixas e, mais tarde, voltaram ao tatame para ensinar.

É o caso de Clayton França, hoje um dos principais parceiros de César no trabalho. Faixa-preta, ele também treina ao lado da esposa, Andresa Gonçalves Claro, faixa-marrom. A relação ultrapassa o espaço das aulas e ajuda a formar uma espécie de corrente: quem um dia aprendeu, hoje ensina.

Para César, a razão de existir do projeto está justamente naquilo que acontece com as crianças ao longo desse processo. “Quando entra no projeto a criança aprende a ter disciplina, realmente muda a vida. É o que a gente costuma falar. O nome do projeto é Transformando Vidas.” Segundo ele, muitas crianças chegam sem compreender determinadas regras de convivência e, aos poucos, aprendem a respeitar professores, colegas e outras pessoas. “Aqui a gente tem muita regra, muita disciplina, hierarquia. Então ela vai adquirindo isso, passando a ter um respeito maior pelas pessoas. Não só aqui dentro.”

Uma família dentro da outra
Mas talvez nenhuma história de projeto social consiga ser contada apenas por quem está à frente dele. É preciso olhar para quem acompanha os filhos, para quem ajuda nas viagens, para quem doa um quimono e para quem percebe que o esporte começou a produzir efeitos que vão muito além da competição. A história de Wilson mostra isso. Na família, o jiu-jítsu já atravessa gerações. A mãe, de 76 anos, é faixa-azul; o irmão caçula, faixa-roxa. Foi ele quem levou a filha de Wilson para conhecer o esporte. “Chegou lá na boca do tatame, já jogou ela lá dentro, ela gostou. Tem dois anos que ela está fazendo jiu-jitsu.”

Depois, foi a vez dos filhos. Ao verem a avó praticando, quiseram experimentar também. “Eles viram a vó lutando e falaram: ‘Quero lutar também’.” Há pouco tempo no projeto, os filhos já pedem para voltar aos treinos. Wilson, que também pratica outros esportes com a família, resume o papel dos pais em uma frase curta: “Tem que participar.” E, de tanto acompanhar os filhos, admite: “Eu, de ver eles, também já estou até pensando em jogar aqui no tatame também, começar a praticar com eles.”

Há também quem tenha encontrado no projeto uma forma de cuidar dos outros. Adelita acompanha os atletas nas viagens e ajuda a cuidar das crianças enquanto os professores estão envolvidos com pesagem e lutas. Organiza alimentação, água, acompanha as brincadeiras e permanece por perto. “É mais um apoio mesmo, já que são poucos os pais que podem ir. Então eu me voluntariei”, explica. Ela também participa, ao lado de outras mães, da preparação dos kits de alimentação levados aos campeonatos.

Para ela, porém, esse trabalho tem uma dimensão pessoal. Depois de viver a experiência de acompanhar a filha mais velha, que precisou permanecer em casa durante dois anos e meio após um acidente, encontrou no cuidado com outras crianças uma nova forma de participação. “Pra mim chega a ser maravilhoso cuidar de outras crianças, poder orientar, poder falar pra eles o que deu certo e o que deu errado.” E completa: “Pra mim, é como se fosse meus filhos.” Quando perguntada sobre o trabalho voluntário, Adelita não hesita: “Não é difícil – basta olhar com amor. Basta ter amor, isso aqui é amor, entendeu? Então, quem ama, cuida; quem ama, faz.”

Do tatame para os campeonatos
Alguns dos alunos já descobriram também o lado competitivo do esporte. Entre os principais atletas estão Yasmin, Mariana, Gabrielly, Allana, Isabella, Melissa, Rafaela, João Magro, João Vitor e Davi. Há alunos que chegaram a competições estaduais, nacionais e internacionais, com títulos paulistas, brasileiros e mundiais. Nas fotografias feitas durante os treinamentos, os que costumam competir aparecem, em grande parte, usando quimonos pretos. É quase como se houvesse ali uma identificação visual de quem já percorreu uma parte maior daquele caminho. Mas basta observar o treino para perceber que a competição não é o ponto de partida. Os mais experientes treinam com os iniciantes. Os professores demonstram os movimentos, as crianças observam atentamente, depois tentam, erram e recomeçam.

Jiu-jitsu: respeito, hierarquia e organização

O campeonato é apenas uma das possibilidades que surgem no percurso. Antes dele vêm a disciplina, a frequência, a convivência, a capacidade de ouvir, a necessidade de controlar a própria força e, principalmente, o respeito por quem está do outro lado. No jiu-jítsu, o adversário é também parceiro. Sem ele, não existe treino. E essa talvez seja uma das primeiras lições que ultrapassam o tatame.

Uma rede que se mantém de pé
As aulas acontecem às terças, quartas e quintas-feiras, das 19h às 21h, e aos sábados, das 10h às 12h. Não há mensalidade. O projeto informa que não recebe atualmente verba de entidades públicas ou privadas e sobrevive de doações. Quimonos e equipamentos chegam por meio de amigos e parceiros. Para as competições, pais e professores também se mobilizam em vaquinhas para levantar os recursos necessários.

César não esconde que manter o projeto é um exercício permanente de mobilização. “A gente tem que fazer com amor. É a gente, no início, nem pensamos na remuneração.” A ideia, segundo ele, sempre foi fazer o bem para a comunidade, oferecer uma oportunidade às crianças e tirá-las das ruas. E ele faz questão de dividir essa história com aqueles que permaneceram ao seu lado. “Não só da minha parte, mas da escola, desses meus alunos que me ajudam, que hoje são professores. A gente tem muita ajuda dos pais, que conseguem enxergar um mundo grande na vida dos filhos.” Quando falta dinheiro, a comunidade se mobiliza. Uma doação de quimono, uma rifa, uma vaquinha, uma ajuda para pagar uma inscrição. São pequenos gestos que, somados, mantêm o projeto em movimento.

A aula que continua depois da aula
Em determinado momento do treinamento, os exercícios param. As crianças se sentam no tatame, os professores ficam à frente e todos passam a ouvir. É uma cena aparentemente simples, mas talvez seja uma das imagens que melhor traduzem o projeto. Ali, o jiu-jítsu deixa de ser apenas movimento. É preciso saber ouvir, esperar e respeitar o espaço do outro. É preciso compreender que força não significa violência e que vencer não significa necessariamente derrotar alguém.

Tatame: experiências regulares de disciplina

Para algumas crianças, pode ser uma das primeiras experiências regulares de disciplina construída pela convivência. Para outras, o lugar onde descobrem uma habilidade, fazem amigos ou encontram uma referência adulta. É por isso que histórias como as de Adelita e Wilson são tão importantes. Elas tiram o projeto do campo das estatísticas. Mais de 70 crianças é um número significativo, mas são também mais de 70 histórias diferentes. Há quem chegue tímido, quem queira competir, quem encontre ali uma atividade depois da escola, quem descubra uma paixão pelo jiu-jítsu e quem, anos depois, volte para ensinar. E há aqueles que simplesmente encontram naquele espaço um lugar para estar.

Mestre Cesar, Adelita e Wilson: histórias que se entrelaçam

O que fica depois da faixa
Talvez seja essa a maior vitória de um projeto que atravessa mais de duas décadas e continua funcionando com uma estrutura construída muito mais pela dedicação das pessoas do que pelo dinheiro. César permanece como a base. Clayton e os demais professores dão continuidade ao trabalho. As famílias acompanham. Os antigos alunos retornam. As crianças chegam. E o tatame continua ali.

No Caetetuba, em um território tantas vezes invisibilizado quando se olha para a cidade apenas a partir de seus cartões-postais, existe uma sala onde dezenas de crianças aprendem, algumas noites por semana, que ninguém evolui sozinho. Elas aprendem a cair e levantar. A ganhar, perder, ouvir e respeitar. A controlar a própria força e, sobretudo, a compreender que o outro, mesmo quando está do lado oposto durante uma luta, pode ser justamente aquele que vai ajudá-las a crescer.

No fim, talvez seja isso que explique o nome do projeto. Transformar vidas não significa necessariamente fazer algo grandioso. Às vezes começa com uma porta aberta, um quimono emprestado, um professor que permanece, uma família que acompanha e um espaço onde uma criança descobre que pode ser melhor amanhã do que foi hoje. No tatame, a faixa muda de cor. Mas o que se aprende ali pode acompanhar uma pessoa por toda a vida.