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“O CRM é um espaço de informação. A mulher pode chegar mesmo na dúvida”, diz Gabriela Santos

Coordenadora do Centro de Referência da Mulher Dirce Bellingeri explica como funciona a rede de proteção em Atibaia, por que a maioria das mulheres ainda chega ao serviço depois de procurar a Delegacia e como o acolhimento pode começar antes do registro da violência

Osni Dias

Se a violência contra a mulher muitas vezes começa antes que ela própria consiga reconhecê-la como violência, o trabalho do Centro de Referência da Mulher Dirce Bellingeri começa justamente nesse espaço de dúvida.

É possível chegar ao CRM sem boletim de ocorrência, sem medida protetiva e até sem ter certeza de que aquilo que está acontecendo é uma situação de violência. A proposta do serviço, explica Gabriela Antunes dos Santos Antonio, coordenadora do Centro, é justamente oferecer informação, acolhimento, orientação e proteção para que a mulher possa compreender o que está vivendo e decidir, com autonomia, quais caminhos pretende seguir.

Em 2025, 238 mulheres chegaram pela primeira vez ao CRM. O número não corresponde ao total de atendimentos: cada mulher pode passar pelo serviço diversas vezes, dependendo de suas necessidades. Ao longo do ano, foram mais de mil atendimentos, envolvendo assistência social, psicologia, orientação jurídica e atendimento terapêutico.

Na entrevista ao Correio de Atibaia, Gabriela explica como essa estrutura funciona, fala sobre os diferentes tipos de violência, a dificuldade de muitas mulheres em reconhecer determinadas situações e o papel da rede de saúde, educação, assistência social e segurança no encaminhamento dos casos. É o que você lê a seguir:

Correio de Atibaia – Gabriela, como funciona hoje a rede de proteção à mulher em Atibaia e qual é o papel do Centro de Referência da Mulher?

Gabriela Antunes – O Centro de Referência da Mulher é um serviço de apoio, orientação e proteção às mulheres que nos procuram. Uma das principais características do nosso trabalho é receber mulheres que querem entender o que está acontecendo, conhecer seus direitos, buscar orientação e, inclusive, mulheres que estão em uma situação de risco e precisam de um apoio mais emergencial para sair de uma situação de violência doméstica. Nosso trabalho é específico para mulheres vítimas de violência doméstica.

Atibaia tem um serviço relativamente antigo. A criação começou por volta de 2012 ou 2013, a partir da iniciativa de mulheres que estavam envolvidas com a política da cidade. Inicialmente, o serviço era realizado por organizações em parceria com a Prefeitura, o que trazia dificuldades porque os contratos tinham começo, meio e fim. Qualquer problema burocrático na continuidade podia deixar o serviço sem funcionamento. Desde 2022, conseguimos municipalizar o Centro de Referência da Mulher.

Correio de Atibaia – O CRM leva o nome de Dirce Bellingeri. Quem foi ela?

Gabriela Antunes – Dirce Bellingeri foi uma mulher que também foi vítima de feminicídio em Atibaia. Ela era professora da rede municipal e tinha acabado de se aposentar quando sofreu essa violência.

As mulheres que criaram o serviço, na época, solicitaram que ele recebesse seu nome como uma forma de preservar sua memória e também lembrar a importância que ela teve na cidade por meio de seu trabalho na educação. Então temos um Centro de Referência que existe há muitos anos e que, desde 2022, está municipalizado, com foco exclusivo no atendimento de mulheres vítimas de violência.

Correio de Atibaia – Como essa rede mudou nos últimos anos?

Gabriela Antunes – Avançou muito. A Lei Maria da Penha avançou a passos largos nos últimos anos e criou, de fato, uma medida protetiva que funciona. Quando a lei começou, demorou muito para que juízes, serviços e delegacias conseguissem colocá-la em prática. Há alguns anos, eu via medidas protetivas sendo concedidas sem sequer conversarem com a mulher. Hoje eu já não vejo mais isso.

Também temos atualmente uma rede mais estruturada. Temos o Centro de Referência da Mulher, uma equipe especializada da Guarda Civil Municipal, que é a Patrulha Maria da Penha, e a Delegacia da Mulher. A Patrulha Maria da Penha é formada por três GCMs que fazem o acompanhamento e a fiscalização das medidas protetivas das mulheres em Atibaia. Elas também orientam os autores de violência para evitar o agravamento das situações.

Correio de Atibaia – Como esses serviços se comunicam?

Gabriela Antunes – A Delegacia da Mulher trabalha com o registro das ocorrências. Quando uma mulher entra com uma ação de medida protetiva, o Tribunal de Justiça encaminha para nós uma cópia dessa medida, para que possamos colocá-la na nossa rede.

Na Delegacia e no Fórum, a mulher recebe, tanto no boletim de ocorrência quanto na medida protetiva, o endereço e o telefone do Centro de Referência. Por isso muitas das mulheres que atendemos hoje chegam depois de terem ido à Delegacia, registrado o boletim de ocorrência e tomado conhecimento do nosso serviço.

Mas o CRM é aberto a qualquer mulher, independentemente de ela ter medida protetiva ou não. Estamos na linha de frente também para evitar que uma situação se agrave e chegue ao boletim de ocorrência ou à medida protetiva. Conseguimos trabalhar tanto nos passos anteriores quanto nos posteriores à denúncia.

Correio de Atibaia – Em 2025, 238 mulheres chegaram pela primeira vez ao CRM. O que esse número significa?

Gabriela Antunes – Em 2025, tivemos 238 novas mulheres chegando ao Centro. Contamos a primeira vez que aquela mulher veio ao serviço. O número de atendimentos é diferente, porque há mulheres que passam duas ou três vezes e outras que permanecem durante mais tempo nos processos terapêuticos.

Temos assistente social, psicóloga, uma advogada que presta orientação jurídica e apoio nos processos da Vara de Família e, atualmente, três terapeutas que ajudam as mulheres em processos de superação de trauma, dependência emocional, reorganização da vida, reorganização interna e elaboração da violência psicológica prolongada.

Algumas mulheres ficam no CRM por mais tempo. Outras vêm para receber uma orientação, conseguem se organizar e seguem seu caminho. Por isso, os 238 são as mulheres que estiveram aqui pela primeira vez. No total, tivemos mais de mil atendimentos, entre atendimento social, psicológico, orientação jurídica e atendimentos terapêuticos. É um trabalho integrado e multiprofissional.

Correio de Atibaia – O atendimento do CRM é exclusivamente para situações de violência?

Gabriela Antunes – Sim. Aqui trabalhamos com mulheres vítimas de violência. E é importante entender que violência não é somente agressão física. A Lei Maria da Penha contemplou inicialmente cinco tipos de violência e foi ampliando a compreensão sobre o problema.

Temos a violência física, a psicológica, que é muito significativa nos nossos números e também nacionalmente, a violência moral, que envolve humilhações e outras formas de desqualificação, a violência patrimonial, que pode envolver retenção de documentos e impedir a mulher de trabalhar, e a violência sexual.

Dentro da violência patrimonial, por exemplo, uma coisa que aparece muito é o celular. É frequentemente uma das primeiras coisas que desaparecem: a mulher perde o controle do próprio celular. A violência sexual costuma aparecer mais tarde para nós. É muito difícil para muitas mulheres conseguirem relatá-la. O estupro marital ainda é um tabu enorme na nossa sociedade. Ser casada não significa que a mulher tenha que fazer algo que não quer ou que a machuque.

Correio de Atibaia – E existe também a violência contra os filhos como forma de atingir a mulher?

Gabriela Antunes – Sim. Hoje se fala muito da violência vicária, que é a violência contra os filhos para atingir a mulher.

Observamos isso com muita força, infelizmente, principalmente nos casos mais graves. Foi muito importante o reconhecimento dessa forma de violência, porque conseguimos também ajudar as mulheres a compreender que a violência praticada contra os filhos pode estar sendo utilizada como uma forma de violência contra elas.

Correio de Atibaia – Muitas mulheres chegam ao CRM sem saber se aquilo que estão vivendo é realmente violência?

Gabriela Antunes – Muitas não têm certeza. E ajudá-las a entender o que é violência e o que não é também faz parte da nossa orientação.

Precisamos diferenciar conflito de violência. Existem conflitos conjugais, conflitos nos relacionamentos, entre amigos, no trabalho. Isso faz parte das relações humanas. Mas existe um limite entre um conflito e uma situação de violência. Aqui ajudamos a mulher a entender o que está acontecendo, a olhar para aquela situação e, a partir daí, buscar caminhos para superá-la.

Correio de Atibaia – De onde vêm as mulheres que chegam ao CRM?

Gabriela Antunes – Estamos fazendo esse levantamento. Hoje, infelizmente, a maioria ainda vem da Delegacia, quando a situação já está mais grave e a violência já foi instaurada. Temos também mulheres encaminhadas pela rede de saúde – Santa Casa, UPA e hospitais da rede privada – e pelas escolas. Saúde e educação são parceiros importantes. Também temos os serviços ligados à assistência social, como CRAS e CREAS.

Esse número ainda é bem menor quando comparado ao das mulheres que chegam por meio das medidas e da Delegacia. Temos trabalhado na formação dessas equipes para que consigam identificar e encaminhar as mulheres. Toda vez que movimentamos essas equipes e fazemos uma formação, percebemos um aumento dos encaminhamentos. Queremos reverter um pouco essa lógica.

Correio de Atibaia – Então existe um caminho mais adequado para a mulher procurar ajuda?

Gabriela Antunes – Depende muito da circunstância. Mas o CRM é um ótimo lugar para procurar ajuda justamente porque é um serviço de porta aberta. Mesmo que a mulher esteja na dúvida, conseguimos orientá-la.

Aqui não é uma delegacia. Não vamos oficializar uma denúncia contra o autor. Muitas mulheres têm medo ou têm dó e pensam: “não quero prejudicar”. Por isso, o CRM deve ser uma porta de entrada para mulheres que buscam informação e apoio. A narrativa pode mudar dependendo do lugar onde ela procura ajuda. Pode existir uma diferença entre o que aparece em um registro policial e o que chega até nós.

“Mesmo na dúvida, a mulher pode procurar o CRM.”

Correio de Atibaia – Isso também vale para os espaços comunitários e religiosos?

Gabriela Antunes – Sim. Pesquisas apontam que espaços religiosos estão entre os primeiros lugares onde muitas mulheres pedem ajuda. O problema é que nem sempre esses espaços têm orientação sobre para onde encaminhá-las. Por isso temos feito uma força-tarefa para falar sobre o CRM nesses espaços.

O CRM não é um espaço de polícia nem de investigação. É um espaço de informação. Se uma mulher está em dúvida, esses espaços comunitários precisam saber encaminhá-la para cá. Aqui ela pode ser ouvida, pode explicar o que está acontecendo, pode entender a situação e, mesmo assim, fazer suas próprias escolhas. Essa é uma das nossas premissas: a autonomia da mulher.

“O CRM não é um espaço de polícia nem de investigação. É um espaço de informação.”

Muitos espaços vão dizer: “siga com ele” ou “denuncie”. Aqui é diferente. Nós vamos avaliar o risco que essa mulher corre, entender o que está acontecendo, explicar os caminhos possíveis e respeitar a escolha dela.

Correio de Atibaia – Uma mulher pode chegar a um serviço público falando apenas que está com dor ou com problemas familiares, sem conseguir dizer que sofre violência?

Gabriela Antunes – Isso é muito comum. Nós percebemos isso principalmente nas unidades de saúde. Por isso falamos tanto sobre a importância de capacitar e orientar os profissionais de saúde. Quando conseguimos que esses profissionais estejam mais preparados, eles conseguem identificar situações e orientar a mulher para que ela procure ajuda.

Hoje recebemos da saúde as notificações compulsórias de violência do Ministério da Saúde, por meio do sistema de notificação de agravos. A maioria esmagadora dessas informações vem da rede hospitalar, tanto pública quanto privada, em situações de violência interpessoal contra mulheres.

Correio de Atibaia – E como o CRM consegue chegar até uma mulher que não procurou espontaneamente o serviço?

Gabriela Antunes – Nós somos um serviço para o qual as mulheres procuram ajuda. Não saímos procurando mulheres, por uma questão de segurança delas. Conseguimos fazer contato a partir de uma medida protetiva ou de uma notificação de algum serviço, mas, nesses casos, contamos principalmente com o apoio das unidades de saúde para identificar a situação e orientar a mulher a vir até nós.

Isso exige um trabalho contínuo de capacitação. Nossa equipe é reduzida para conseguir fazer essas capacitações com a frequência que gostaríamos. Mas percebemos que, sempre que conseguimos realizá-las, há um aumento na procura pelo serviço. Por isso precisamos continuar fazendo esse trabalho de maneira consciente e organizada.


Acompanhe a série de reportagens do Correio de Atibaia.

Amanhã, matéria especial com Vanessa Martins, da Patrulha Maria da Penha.

A primeira reportagem da série está aqui:
Antes do feminicídio, existe uma história de violência que precisa ser interrompida
https://correiodeatibaia.com.br/2026/08/26/antes-do-feminicidio-existe-uma-historia-de-violencia-que-precisa-ser-interrompida/

A segunda matéria da série, aqui:
“A violência começa muito antes da agressão física”, diz Mariana Farcetta
https://correiodeatibaia.com.br/2026/08/27/a-violencia-comeca-muito-antes-da-agressao-fisica-diz-mariana-farcetta/