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O clima está mudando. E Atibaia precisa olhar para frente, aponta meteorologista

Bruno Bainy explica por que previsão do tempo e previsão climática são coisas diferentes e defende que a cidade se prepare não apenas para o que já aconteceu, mas para o clima que está por vir

Osni Dias

Quando se fala em mudança climática, é comum olhar para o que aconteceu ontem, no verão passado ou nas últimas grandes chuvas. Mas, para quem trabalha com clima, olhar apenas para trás já não é suficiente. Se os padrões estão mudando, é preciso também tentar entender o que vem pela frente. É justamente esse o ponto de partida da conversa com Bruno Bainy, meteorologista do Cepagri/Unicamp, ouvido pelo Correio de Atibaia para a série Atibaia e o Clima. Para ele, preparar uma cidade para os eventos extremos passa por conhecimento, planejamento e capacidade de antecipação.

Antes de falar sobre o que pode acontecer nos próximos meses, Bruno faz uma distinção importante: previsão do tempo não é a mesma coisa que previsão climática sazonal. A previsão do tempo trabalha com um horizonte mais curto e consegue oferecer informações mais detalhadas sobre as próximas horas e os próximos dias. Já a previsão climática sazonal apresenta um panorama mais amplo, indicando tendências para períodos mais longos. Ela não permite dizer exatamente como será cada dia, mas ajuda a entender se determinado período tende a ser mais quente, mais frio, mais seco ou mais chuvoso do que o habitual.

Essa comparação é feita com aquilo que os meteorologistas chamam de climatologia ou normais climatológicas. São referências construídas a partir de 30 anos de dados, que permitem saber, por exemplo, qual costuma ser a temperatura ou o volume de chuva esperado para determinado mês. Para Atibaia, isso ajuda a colocar o clima em perspectiva. Agosto, por exemplo, tem como referência temperaturas máximas próximas de 27 graus e mínimas entre 13 e 14 graus. A partir de setembro, as temperaturas médias sobem gradualmente, enquanto a chuva também aumenta: cerca de 60 milímetros em setembro, 120 em outubro, aproximadamente 170 em novembro e mais de 200 milímetros em dezembro.

Esses números não são apenas uma curiosidade. A climatologia serve de referência para uma série de atividades humanas, da gestão da água e da energia ao plantio e à colheita. Quando aquilo que era considerado normal começa a mudar, as consequências chegam também à economia e à organização das cidades.

Chuvas no Rio Grande do Sul deixaram dois mortos e um desaparecido – Alexandre Pessoa – Divulgação – Agência Brasil. 18/06/2025 

Mais calor pela frente
A tendência apontada por Bruno para os meses seguintes à entrevista era de temperaturas acima da média, situação que poderia se estender pelo menos até o começo do ano seguinte. No Sudeste brasileiro, esse é um dos efeitos mais conhecidos associados ao El Niño. Pode parecer pouco falar em uma temperatura média apenas um grau ou um grau e meio acima da referência. Mas, quando essa diferença é registrada ao longo de um mês inteiro, ela ganha outro significado.

Bruno explica que uma anomalia de 1,5 grau pode indicar períodos de calor prolongado ou mesmo ondas de calor intensas. O período entre o final de agosto, setembro e o começo de outubro é naturalmente mais propenso aos picos de calor do ano, e a presença do El Niño pode agravar essa situação. O impacto não fica restrito ao desconforto térmico. O calor interfere na saúde, no meio ambiente e também no consumo de energia elétrica.

Nas chuvas, a previsão sazonal também apontava para períodos acima da média, embora com menor possibilidade de detalhamento. O que a previsão climática consegue indicar é uma tendência de maior frequência de eventos de chuva e a possibilidade de episódios pontualmente mais extremos, com volumes elevados em pouco tempo e tempestades. Mas há uma diferença fundamental: saber que determinado período tende a ser mais chuvoso não significa saber exatamente quando uma tempestade forte vai acontecer. Para isso, entra novamente a previsão do tempo. Com alguns dias de antecedência, ela permite avaliar a possibilidade e a intensidade de eventos específicos e orientar um preparo mais imediato.

El Niño não é mudança climática
Outro cuidado importante apontado pelo meteorologista é não colocar tudo na mesma conta. O El Niño é um fenômeno de variabilidade climática. Existem outros ciclos e oscilações que atuam em escalas de semanas, anos e até décadas. Essas alterações podem modificar temporariamente os padrões atmosféricos e, depois, tender à normalidade.

Mudança climática é outra coisa. Ela representa alterações permanentes nos padrões de temperatura, precipitação e ocorrência de eventos extremos. Para Bruno, é importante separar esses conceitos justamente para compreender o que é uma oscilação temporária e o que representa uma transformação mais duradoura do clima. E existe ainda uma questão que torna o cenário mais complexo: a possibilidade de que as mudanças climáticas contribuam para tornar eventos associados ao El Niño e à La Niña mais extremos. Bruno ressalta, porém, que ainda não existem conclusões definitivas sobre essa relação.

O El Niño e a La Niña são fases opostas de um mesmo fenômeno climático natural chamado ENOS (El Niño-Oscilação Sul), que altera a temperatura das águas superficiais do Oceano Pacífico Equatorial e os ventos alísios. Fonte: https://www.todamateria.com.br/la-nina/

O que ainda não conseguimos prever
A meteorologia avançou muito. Computadores mais potentes e modelos melhores permitem hoje previsões confiáveis para cinco ou sete dias que são superiores às previsões feitas décadas atrás para períodos menores. Isso não significa, entretanto, que seja possível prever tudo.

Mudanças rápidas nos padrões da atmosfera continuam sendo um desafio. E há fenômenos particularmente difíceis: tornados, microexplosões e tempestades muito localizadas podem atingir uma determinada área com grande intensidade, enquanto regiões próximas registram condições completamente diferentes.

É justamente por isso que uma cidade não pode esperar que a meteorologia consiga antecipar cada ocorrência para então decidir o que fazer. Para Bruno, Atibaia precisa estar preparada para eventos extremos independentemente de eles serem provocados pelo El Niño, pela mudança climática ou pela própria variabilidade natural do clima. Os fenômenos extremos sempre existiram. O problema é que determinadas condições podem potencializar seus impactos. E preparo, para ele, começa muito antes da chuva ou da onda de calor. “O preparo começa tanto com educação e conscientização da população e do poder público quanto com ações mais estratégicas em termos de planejamento”, afirma. Ou seja, não basta olhar para o que já aconteceu

Uma cidade costuma planejar suas obras e intervenções a partir daquilo que conhece. Os registros históricos mostram onde já houve enchentes, deslizamentos, problemas de infraestrutura ou outros eventos. Mas, se o clima está mudando, os registros do passado podem não ser suficientes para dimensionar os riscos do futuro. Bruno defende que o poder público invista em estudos capazes de projetar diferentes cenários. É preciso mapear as áreas de risco, identificar os tipos de risco e saber quais populações podem ser mais atingidas. A partir daí, definir que infraestrutura será necessária e quais intervenções podem reduzir os impactos.

Isso pode envolver grandes obras, mas também decisões aparentemente pequenas, como a maneira de construir uma casa ou organizar um jardim. O planejamento precisa considerar o clima que a cidade poderá enfrentar nas próximas décadas, e não somente aquele que seus moradores já conheceram. É uma mudança de lógica: não esperar o problema acontecer para depois corrigir o que foi feito. E há outro ponto importante. Nenhuma área, isoladamente, dará conta desse desafio.

O próprio trabalho do IPCC (Painel Intergovernamental sobre Mudança do Clima), lembra Bruno, reúne especialistas de diferentes campos: pesquisadores do sistema climático, agricultura, saúde, vulnerabilidade social, migração e outros setores. Para ele, a mesma lógica precisa chegar às cidades. Meteorologia, engenharia, meio ambiente, saúde, planejamento urbano e assistência social precisam conversar. O objetivo é simples de entender, embora não seja simples de executar: fazer hoje investimentos que funcionem também amanhã, evitando obras inadequadas, desperdício de dinheiro e a necessidade de refazer tudo quando as condições mudarem.

Bruno resume esse desafio olhando para algumas décadas adiante. Se as projeções indicam que determinados padrões de chuva, calor ou eventos extremos podem se alterar, é preciso dimensionar as estruturas atuais considerando esse cenário. Assim, quando a mudança chegar com maior intensidade, a cidade não descobrirá que construiu para um clima que já não existe.

Atibaia continuará convivendo com eventos extremos. Isso não é novidade. A questão é quanto desses impactos pode ser reduzido. E talvez seja justamente aí que começa a resposta para a pergunta que conduz esta série: Atibaia está preparada para a mudança climática?

A meteorologia pode ajudar a dizer o que está acontecendo e o que pode acontecer. Mas a decisão sobre como a cidade vai se preparar é outra história. E ela depende de planejamento, conhecimento e, sobretudo, da capacidade de olhar para frente.