Atibaia precisa se preparar para um clima que já está mudando
Geógrafa Samantha Proença chama atenção para o aumento do calor e das chuvas intensas e defende um plano de adaptação com soluções baseadas na natureza
Osni Dias
A sensação de que Atibaia está mais quente não é apenas uma impressão de quem vive na cidade. Samantha Graiki Proença, geógrafa e especialista em gerenciamento ambiental, mora no município desde os cinco anos de idade e diz perceber mudanças no comportamento do clima. Verões mais quentes, noites que já não refrescam como antes, ondas de calor mais frequentes e episódios de chuva mais intensa fazem parte da sua observação cotidiana. Mas ela faz uma ressalva importante: dizer exatamente quanto a temperatura média de Atibaia aumentou nas últimas décadas exige dados meteorológicos específicos. Por isso, para essa parte da análise, a referência mais adequada é a meteorologia, como explicou na entrevista anterior desta série o meteorologista Bruno Bainy, do Cepagri/Unicamp.
O que Samantha destaca é um cenário mais amplo. Segundo ela, o planeta já apresenta um aquecimento de 1,6°C em relação aos níveis pré-industriais, e o Brasil, especialmente nas regiões tropicais, vem registrando aquecimento em ritmo acelerado e desigual. A duração das ondas de calor também aumentou em todo o país, e Atibaia acompanha essa tendência. Um grau pode parecer pouco quando aparece no termômetro. Mas, quando se trata de uma mudança na temperatura média do planeta, a diferença é significativa. Temperaturas mais altas interferem na pressão atmosférica, na umidade, nas chuvas e nos ventos. Os efeitos chegam à saúde, à agricultura, à indústria e aos sistemas de abastecimento de água. E Atibaia já conhece alguns desses sinais.
Mais calor, mais pressão sobre a cidade
Nos últimos anos, o município registrou episódios de chuvas intensas, inclusive nos anos de 2009, 2010 e 2011, além de ocorrências mais recentes, com enchentes e alagamentos. Para Samantha, não basta registrar esses episódios depois que acontecem. É preciso entender o que eles significam para o futuro da cidade.
Uma das ferramentas que ajudam nessa leitura é o AdaptaBrasil, plataforma do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação que reúne informações sobre riscos relacionados às mudanças climáticas.
Na análise apresentada por Samantha, Atibaia aparece com risco alto no setor de saúde para leishmaniose visceral e risco médio para leishmaniose cutânea e arboviroses, como dengue, zika e chikungunya. Segurança energética e recursos hídricos/estresse hídrico aparecem com risco médio. Os dados não significam que esses problemas necessariamente acontecerão em determinada proporção ou em determinado momento. São indicadores de risco que ajudam a identificar onde a cidade pode estar mais exposta e onde precisa se preparar. É aí que entra um conceito importante para entender a mudança climática: risco não depende apenas da ocorrência de um fenômeno.
Onde está o risco?
Samantha explica que a análise utilizada pelo IPCC considera três elementos principais: vulnerabilidade, ameaça e exposição. A vulnerabilidade está relacionada à capacidade de adaptação e à sensibilidade de determinado grupo ou território. A ameaça considera a possibilidade de um evento acontecer. Já a exposição mostra quem ou o que está no caminho desse evento. No caso de Atibaia, existe uma informação positiva: o município apresenta baixa vulnerabilidade quando considerada sua capacidade adaptativa. Mas isso não significa que esteja protegido. A cidade apresenta alta exposição de moradias a áreas de risco de deslizamentos e inundações e muito alta ameaça de ocorrência de chuvas intensas. É uma diferença importante.

Uma cidade pode ter condições de responder a uma emergência e, ao mesmo tempo, ter muita gente vivendo em locais que estão expostos a ela. Por isso, na visão de Samantha, Atibaia precisa avançar na elaboração de um plano de adaptação às mudanças climáticas. Não apenas para reagir melhor quando uma chuva forte chegar, mas para reduzir os riscos antes que ela aconteça.
A natureza também pode ser parte da solução
Para Samantha, adaptação não significa somente construir grandes obras ou criar estruturas para enfrentar os efeitos da chuva e do calor. A própria natureza pode ajudar. Ela cita estratégias como jardins de chuva, parques lineares, cidades-esponja e telhados verdes. São soluções que podem contribuir para reduzir as temperaturas e controlar o excesso de água, diminuindo os impactos de enchentes e inundações.
A ideia de cidade-esponja, por exemplo, parte de um princípio simples: em vez de tentar retirar rapidamente toda a água da chuva, o espaço urbano pode ser planejado para absorver, armazenar e retardar parte dessa água. É uma mudança de olhar sobre a própria cidade. Calçadas, jardins, áreas verdes, córregos, parques e terrenos podem deixar de ser vistos apenas como elementos isolados e passar a fazer parte de uma estratégia de adaptação. Samantha coloca que esse debate precisa sair do campo exclusivamente técnico e chegar à sociedade. “Precisamos provocar conversas sobre o problema ‘mudança do clima’, mas com foco nas soluções práticas, especialmente nas estratégias baseadas na natureza”.
O clima não é só El Niño
Outro ponto importante da entrevista é não confundir mudança climática com fenômenos naturais como o El Niño. Samantha explica que o El Niño é um fenômeno natural de aquecimento anormal das águas superficiais do Oceano Pacífico Equatorial, que ocorre em intervalos irregulares, geralmente entre dois e sete anos. Ele modifica a circulação da atmosfera e os ventos e pode provocar secas severas em algumas regiões e chuvas intensas em outras. No Brasil, tende a favorecer temperaturas mais altas e ondas de calor no Centro-Oeste e no Sudeste. O que preocupa é a possibilidade de interação entre os fenômenos.
Segundo Samantha, os estudos indicam que as mudanças climáticas podem intensificar os efeitos do El Niño, enquanto episódios de El Niño podem contribuir para picos extremos na temperatura média global. É uma relação que pode amplificar determinados eventos. Isso não significa que todo evento extremo possa ser explicado simplesmente pelo El Niño ou pela mudança climática. Como mostrou Bruno Bainy na segunda reportagem da série, existem diferentes formas de variabilidade climática e muitos fatores envolvidos na formação de um evento meteorológico. Mas significa que a cidade precisa estar preparada para mais de um cenário.
Que cidade Atibaia quer ser?
A pergunta talvez seja maior do que saber se vai chover mais ou se o próximo verão será mais quente. Que cidade Atibaia quer ser diante de um clima diferente? Samantha defende que o município se torne uma cidade mais resiliente e adaptada. Para isso, considera fundamental aproximar poder público, pesquisadores, organizações e moradores. Ela cita iniciativas que já começaram a reunir movimentos, coletivos e organizações da região bragantina em torno de conferências de meio ambiente. Entre elas estão o Coletivo Socioambiental, Salve Atibaia, Amigos do Córrego do Onofre, OSCIP SIMBiOSE e Famílias pelo Clima.
O movimento, segundo ela, precisa agora avançar para uma etapa de planejamento. “Agora, precisamos que o poder público do município e as organizações da sociedade civil se movam na direção da realização de um plano de adaptação, sem deixar ninguém para trás.” Essa última parte é fundamental. Adaptar uma cidade não significa apenas proteger áreas centrais, regiões valorizadas ou estruturas consideradas estratégicas. Significa identificar quem está mais exposto, quais bairros precisam de maior atenção e quais grupos terão mais dificuldade para enfrentar calor, falta de água, enchentes ou deslizamentos. Significa também pensar antes de construir.
A cidade que cresce hoje será a cidade que terá de enfrentar o clima das próximas décadas. Por isso, decisões tomadas agora sobre ocupação do solo, drenagem, arborização, áreas verdes, habitação e infraestrutura podem aumentar ou diminuir os riscos no futuro. A conversa com Samantha amplia a pergunta desta série. Depois de entender o que está acontecendo com o clima, é preciso olhar para o território e perguntar como estamos construindo Atibaia para enfrentar esse novo cenário.
A resposta não está apenas em prever a próxima tempestade. Está também em decidir, enquanto ainda há tempo, onde e como a cidade deve crescer, como pode absorver melhor a água, reduzir o calor e proteger quem está mais exposto.
E esse debate nos leva ao próximo passo da série: quando a chuva chega, quem está preparado para agir?
Leia também:
Atibaia está preparada para a mudança climática?
https://correiodeatibaia.com.br/2026/09/14/atibaia-esta-preparada-para-a-mudanca-climatica/
O clima está mudando. E Atibaia precisa olhar para frente, aponta meteorologista
https://correiodeatibaia.com.br/2026/09/15/o-clima-esta-mudando-e-atibaia-precisa-olhar-para-frente-aponta-meteorologista/
