Quando uma fotografia vira canção: “Beira de Folha” chega a Piracaia
Um disco nascido do encontro entre imagens, poesia e música volta aos palcos seis anos depois de seu lançamento
Consuelo de Paula e João Arruda apresentam neste sábado, 15 de agosto, na Casa Viva Piracaia, o espetáculo inspirado no álbum que nasceu do encontro entre imagens, poesia e música. Há discos que começam com uma canção. “Beira de Folha” começou antes dela. Começou com uma imagem.
O músico e violeiro João Arruda passou a compartilhar fotografias e imagens com a cantora, compositora e poeta Consuelo de Paula. Algumas delas despertaram poemas. Os poemas ganharam melodias. E, pouco a pouco, uma conversa entre dois artistas transformou-se em um trabalho musical que reúne canções, poesia, fotografia e natureza. É essa experiência que Consuelo de Paula e João Arruda levam ao palco neste sábado, com o show “Beira de Folha”, que acontece a partir das 20h30.
Lançado em 2020, o álbum reúne 12 faixas e cerca de 34 minutos de música. Mais do que um conjunto de canções, porém, “Beira de Folha” nasceu como uma obra que aproxima diferentes linguagens artísticas. Fotografias produzidas em meio a montanhas, rios e florestas provocaram a escrita de Consuelo; depois, João Arruda transformou poemas e letras em música. O próprio projeto mantém atualmente um site que reúne parte desse universo de imagens, poemas, músicas e áudio-poemas.
O processo criativo aconteceu durante a quarentena e teve como uma de suas referências o Sítio Arvoredo, no Vale da Pedra Branca, em Caldas, Minas Gerais. Ali, a paisagem não aparece apenas como cenário. Ela participa da criação. A mata, a água, as árvores, os animais e a memória se transformam em matéria poética e musical. É uma característica que atravessa todo o repertório. “Canoa”, “Sete Aroeiras”, “Companhia”, “Arvoredo”, “Cortejo Manancial” e a própria “Beira de Folha” carregam imagens de rios, árvores, bichos, montanhas e caminhos. A natureza, entretanto, não está ali apenas para ser contemplada. Está ligada à memória, ao pertencimento e à própria condição humana.
“Poema de Árvore II” traduz essa perspectiva ao olhar para o tempo a partir das primeiras árvores, das paisagens e daquilo que existia antes de nós. É uma poesia que desloca o ser humano do centro e propõe outro modo de perceber a vida. Talvez esteja aí a força de “Beira de Folha” seis anos depois de seu lançamento.
O trabalho nasceu em um momento de isolamento, quando o mundo parecia ter parado, mas encontrou na natureza uma espécie de movimento contrário. Enquanto as pessoas estavam confinadas, as árvores continuavam crescendo, os rios continuavam correndo e a paisagem continuava produzindo imagens. Consuelo de Paula e João Arruda transformaram essa percepção em música.
Mineira de Pratápolis, Consuelo é cantora, compositora, poeta, diretora artística e produtora musical. Sua trajetória inclui trabalhos autorais e parcerias com importantes nomes da música brasileira, além de canções gravadas por artistas como Maria Bethânia e Alaíde Costa. João Arruda, de Campinas, é músico, cantor, percussionista, violeiro e produtor fonográfico, com uma trajetória dedicada à pesquisa e à recriação de manifestações da cultura popular brasileira.
O encontro dos dois produziu uma obra que parece pedir justamente aquilo que a vida contemporânea oferece cada vez menos: tempo para olhar. Olhar uma fotografia até que ela deixe de ser apenas fotografia. Escutar uma palavra até que ela se transforme em música. Perceber uma árvore não apenas como parte da paisagem, mas como presença. “Beira de Folha” é, nesse sentido, uma experiência sobre natureza, mas também sobre percepção. Sobre o que ainda conseguimos enxergar quando diminuímos a velocidade.
E talvez seja por isso que um trabalho continue atual. A relação entre ser humano e natureza deixou de ser apenas uma questão ambiental. É também uma questão de sobrevivência, de memória e de futuro. Neste sábado, em Piracaia, essa conversa será feita ao vivo, por meio da música e da poesia. Se eu fosse você, não perderia por nada.


Serviço
Beira de Folha — Consuelo de Paula e João Arruda
Quando: Sábado, 15 de agosto, a partir das 20h30
Onde: Casa Viva Piracaia
Endereço: Centro, Praça Julio Mesquita, 56, Piracaia – SP
Ingressos: R$ 50 antecipado e R$ 60 na porta.
Ingressos disponíveis pelo Sympla.
