Primeira noite do II Encontro do Patrimônio resgata as estações ferroviárias de Atibaia
Palestra de Eli Obis abriu programação no Casarão Júlia Ferraz e revelou detalhes das antigas estações; em entrevista exclusiva ao Correio de Atibaia, arquiteta defende preservação como forma de manter viva a identidade da cidade
A história ferroviária de Atibaia voltou a ocupar seu lugar na memória da cidade na noite desta sexta-feira, 21 de agosto, durante a abertura do II Encontro do Patrimônio Cultural, realizado no Casarão Júlia Ferraz. Com casa cheia, a primeira noite do encontro foi dedicada às antigas estações ferroviárias do município. A arquiteta e artista Eli Obis apresentou a palestra “Caminhos das estações ferroviárias de Atibaia”, resultado de uma pesquisa que percorreu as estações remanescentes da antiga Estrada de Ferro Bragantina, observando não apenas sua história, mas também as características arquitetônicas e as condições atuais de conservação.
A pesquisa alcançou as antigas estações de Atibaia, Maracanã, Caetetuba, Tanque e Guaxinduva, construções que sobreviveram ao desaparecimento da ferrovia, desativada em 1967. Mais do que uma sucessão de fotografias antigas e informações históricas, a apresentação mostrou uma cidade que durante décadas teve sua vida organizada pelo movimento dos trens. A ferrovia foi importante para o escoamento da produção regional, especialmente do café, mas também interferiu em hábitos cotidianos que hoje parecem banais. Um deles foi a própria relação dos moradores com o tempo.


Segundo Eli, antes da chegada da ferrovia era comum que cada pessoa tivesse seu relógio alguns minutos adiantado ou atrasado em relação às demais. O relógio da estação passou a funcionar como uma referência coletiva. “Começou a gerar pontualidade para os encontros, compromissos. Foi um hábito bem saudável”, contou a arquiteta ao Correio de Atibaia. A conversa com o público mostrou que a memória ferroviária ainda está presente entre os moradores. Vieram relatos sobre os tempos em que os trens cruzavam a cidade, lembranças familiares, histórias sobre a ocupação posterior das estações e também reflexões sobre o desmonte da malha ferroviária brasileira. Eli considera que ainda há muito a descobrir.
Em entrevista exclusiva ao Correio de Atibaia, ela revelou que iniciou a pesquisa imaginando encontrar um patrimônio em condições muito piores. “Eu estimava encontrar algumas estações em ruínas, abandonadas, e tive uma surpresa com isso. Eu gostei da surpresa”, afirmou.

Entre os exemplos que mais chamaram sua atenção está a estação Guaxinduva, atualmente utilizada como escola infantil e creche. Segundo a pesquisadora, o prédio apresentava, no período em que realizou seu levantamento, detalhes arquitetônicos que justificariam uma atenção especial do poder público. “Realmente, tem detalhes arquitetônicos muito bonitos que mereciam uma atenção do poder público”, disse. E esses detalhes contam uma história.
As antigas estações foram construídas com técnicas e materiais que ajudam a compreender uma maneira de construir que praticamente desapareceu. Tijolos aparentes organizados de diferentes formas, arcos, elementos decorativos próximos ao telhado, estruturas em formato de dente de serra, portas e janelas de madeira e o uso de pinho de Riga são alguns dos elementos observados pela pesquisadora. Há ainda um detalhe que pode passar despercebido para quem olha rapidamente para essas construções: as chamadas “chaves” dos arcos. O que hoje pode parecer apenas um ornamento tinha originalmente uma função estrutural. Era uma cunha responsável por dar estabilidade ao arco.
“Hoje a gente usa essas edificações das estações, essa cunha, somente como um ornamento. Hoje ela não tem a função de uma cunha da época”, explicou Eli. Para ela, conhecer esses detalhes é parte essencial da preservação. “Eu acho que o que preserva é educação, é o conhecimento.” Memória que está fora dos arquivos
A roda de conversa que sucedeu a palestra também revelou uma das questões centrais para quem pesquisa patrimônio: nem toda história está nos documentos. Eli encontrou fotografias e informações no Museu Municipal João Batista Conti e em pesquisas sobre a antiga ferrovia. Mas acredita que os arquivos familiares podem guardar uma quantidade ainda maior de informações sobre o cotidiano das estações. Fotografias antigas, álbuns de família e histórias transmitidas entre gerações podem ajudar a reconstruir uma Atibaia que não aparece nos documentos oficiais.
Uma dessas histórias foi relatada a Eli por Gilberto Santana. Segundo o relato, havia casamentos comunitários na cidade em que as noivas chegavam de trem à estação de Atibaia e seguiam a pé pela Avenida São João até a Igreja Matriz. “Imagina como era isso, que bonito de se ver”, comentou a pesquisadora.
É justamente nesse encontro entre documento e memória pessoal que a pesquisa ganha outra dimensão. A estação deixa de ser apenas uma construção antiga e volta a ser um lugar de pessoas. Lugar de chegada, partida, encontros e despedidas. Uma história que ainda precisa ser contada. A pesquisa de Eli também mudou seu próprio olhar sobre Atibaia. “Eu gostei muito do resultado, vendo a preservação das edificações, pois poderia estar numa situação bem pior”, afirmou.
Ao comparar a situação encontrada em Atibaia com outras estações da antiga Estrada de Ferro Bragantina, ela encontrou exemplos de prédios demolidos, abandonados ou transformados em moradias. Por isso, a preservação do que restou não pode ser tratada apenas como uma questão arquitetônica. Para Eli, uma cidade precisa conhecer sua história porque é dessa relação com o passado que surgem identidade, pertencimento e vínculos afetivos. “Uma cidade precisa conhecer sua história, porque ela cria uma identidade, um pertencimento, cria vínculos afetivos.”
A afirmação resume, de certa maneira, o sentido da primeira noite do II Encontro do Patrimônio Cultural. Atibaia perdeu seus trilhos. Perdeu o trem. Perdeu uma parte importante da paisagem que durante décadas organizou sua vida econômica e cotidiana. Mas não perdeu tudo.
Algumas estações ficaram. Ficaram as fotografias, os detalhes das construções, as histórias das famílias e, sobretudo, a possibilidade de perguntar o que uma cidade quer fazer com aquilo que recebeu de quem veio antes.
Exposição
A exposição “A Pedra Grande Eternizada”, de Euclides Sandoval, com curadoria de Márcio Zago, também foi aberta durante a primeira noite do encontro. A mostra reúne fotografias relacionadas ao movimento social que resultou no tombamento da Serra da Pedra Grande e poderá ser visitada durante os demais dias da programação. O II Encontro do Patrimônio Cultural prosseguiu neste sábado, 22, com visita mediada ao Casarão Júlia Ferraz às 15h e, às 17h, a palestra “Histórias do Museu João Batista Conti”, com a jornalista Araceles Stamatiu, seguida de roda de conversa. Veja parte da entrevista exclusiva ao Correio de Atibaia aqui e também aqui.
No domingo, 23, a programação será dedicada à Pedra Grande, com visita mediada, exibição do documentário “Pedra Grande Doc” e palestra “Trilhas da defesa da Pedra Grande”, com Nathalia Kammer, da SIMBiOSE.
A entrada é gratuita e as palestras e rodas de conversa contam com interpretação em Libras. O II Encontro do Patrimônio Cultural acontece no Casarão Júlia Ferraz, na Rua José Lucas, 11, Centro de Atibaia.

