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Silas Natanael: a voz do samba, da ancestralidade e de Atibaia

Silas Natanael nos deixou neste sábado, 29 de agosto de 2026. Ele não era apenas um “sambista” ou personagem de uma história do Carnaval. Era alguém que pensava a cultura. Numa entrevista realizada em fevereiro de 2024, ele fala com exclusividade sobre ancestralidade, apagamento, racismo, religiosidade, miscigenação e, mesmo quando aborda questões duras, ele procura explicar, contextualizar e produzir consciência. Isso aparece muito claramente quando diz que conhecer a história não deve servir para produzir raiva ou ódio, mas para compreender e valorizar os ancestrais. Ao falar dos avós, da ascendência negra e indígena, afirma que é “produto dessa mistura”, momento em que a entrevista deixa de ser apenas uma reflexão sobre a cultura e passa a ser também um autorretrato. Fala também da necessidade de conhecer a história e sobre o Carnaval enquanto Economia Criativa. Sua fala reúne memória, identidade e futuro. Silas era um artista que tinha consciência histórica e racial e falava disso com naturalidade, inteligência e uma certa ternura. Talvez essa seja essa a melhor maneira de lembrá-lo: não apenas como alguém que cantou o samba, mas como alguém que ajudou a manter viva uma parte da história cultural de Atibaia. A matéria a seguir é uma justa homenagem a um amigo, um artista, um operário da cultura de Atibaia.

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Osni Dias, para Denize, Bia e Mauro

Silas Natanael nos deixou neste fim de semana. Escrever isso ainda parece estranho. Talvez porque algumas pessoas façam parte da paisagem afetiva de uma cidade. A gente se acostuma a encontrá-las, a ouvi-las, a rir com elas, a saber que estão por perto. Silas era uma dessas pessoas.

Cantor, compositor, poeta, sambista e artista generoso, tinha uma maneira risonha de estar no mundo. Era uma pessoa querida, dessas que parecem conhecer todo mundo e ser conhecida por todos. Mas havia também, por trás daquele jeito leve, uma consciência muito clara sobre a cultura, a história e o lugar do negro na formação de Atibaia e do Brasil.

No velório, realizado neste fim de semana, familiares, amigos e artistas foram se despedir de Silas. Sua esposa, a professora Denize Evangelista, lembrou que ele era um homem polêmico, mas também muito afetivo. Os filhos falaram do pai como amigo, confidente e apoiador de seus projetos. O irmão destacou os valores que Silas transmitiu à família e a importância de seguir pelo caminho do bem.

Nascido em Atibaia, com uma passagem pelo Rio de Janeiro, Silas voltou para a cidade e deixou nela sua voz. Interpretava Milton Nascimento com um timbre suave que lembrava “Bituca” e participou de inúmeros projetos culturais, shows, exposições e apresentações. Também foi membro ativo do Quilombo Urbano Negra Visão e Conselheiro de Cultura.

No entanto, talvez uma das melhores maneiras de compreender quem foi Silas esteja em uma conversa que tivemos em fevereiro de 2024. A pauta era o Carnaval de Atibaia, que naquele momento começava a ser retomado depois de anos de interrupção. Silas poderia ter falado apenas sobre escolas de samba, blocos, desfiles e suas lembranças dos antigos carnavais. Mas, como tantas vezes acontecia quando falava sobre cultura, ele foi muito além.

A conversa começou com a infância. “Quando eu tinha 7 anos, morava na rua Benedito de Almeida Bueno, 580. E a Escola de Samba Botafogo era na rua de baixo”, contou. Foi ali que começou sua relação com o Carnaval. Segundo ele, a própria dinâmica das escolas de samba era responsável por aproximar as pessoas. Os ensaios começavam em novembro, com a bateria ocupando as ruas e chamando a comunidade. “Não tinha uma oficina de ensinar a sambar, ensinar a bater. Era uma aprendizagem que começava na rua com as crianças.”

Silas começou no Botafogo, tocando agogô. Era o instrumento de percussão que dominava desde menino. Com o passar dos anos, participou também do Zé Pereira, uma das tradições carnavalescas da cidade, e recordava com humor os antigos carnavais, quando homens e mulheres trocavam de roupa para brincar pelas ruas. A memória do Carnaval de Atibaia aparecia em sua fala como uma sucessão de personagens, escolas e blocos. Ele lembrava dos desfiles na rua Tomé Franco e na rua José Alvim, do público que acompanhava tudo das calçadas e, mais tarde, do surgimento de diversos blocos carnavalescos.

Aos 18 anos, começou a participar do Batutas do Samba, que ensaiava no Grêmio Esportivo Atibaiense. Foi também quando começou a compor sambas-enredo, ao lado de Pedro Lúcio, Cafu e outros companheiros. Segundo suas lembranças, Atibaia chegou a ter uma quantidade expressiva de escolas de samba e blocos carnavalescos. “Então Atibaia chegou no auge do Carnaval. A cidade era rica em termos de Escola de Samba, de bloco carnavalesco. E a nossa cultura era essa, exatamente.”

Denize Evangelista com seu companheiro, Silas Natanael

O Carnaval que Silas queria ver de volta
Para Silas, o período mais forte do Carnaval de Atibaia aconteceu entre 2000 e 2010, quando os desfiles passaram a ocupar a avenida Jerônimo de Camargo. Ele lembrava da estrutura montada pela Prefeitura, das arquibancadas, dos camarotes e da concentração do público para assistir às escolas. A escola parava diante das arquibancadas e do camarote para fazer sua apresentação de bateria, do Mestre-Sala e da Porta-Bandeira. Os intérpretes seguiam pela avenida puxando o samba-enredo, acompanhados pelo carro de som. “Esse foi o auge, acho que de 2000 a 2010. Foi muito forte porque tinha essa quantidade de escolas de samba na cidade.”

Quando conversamos, Atibaia estava há anos sem aquele Carnaval. Silas reconhecia que havia ocorrido uma desmotivação entre as pessoas que faziam o samba, mas também defendia que a própria comunidade precisava assumir um papel mais ativo na reconstrução da festa. “A população do samba tem que deixar de ter essa necessidade de paternalismo, esperar que o setor público faça acontecer as coisas”, dizia. Para ele, a dependência de recursos públicos havia contribuído para o enfraquecimento das escolas, mas a solução passava também pela organização dos próprios sambistas.

A retomada começou a ser discutida em 2021. Silas citava a participação de Jamil Scatena, Orlando Jr., Henrique e outras pessoas ligadas ao Carnaval, além de integrantes da Secretaria da Cultura. Foram reuniões, conversas e tentativas de reorganizar uma comunidade que, segundo ele, havia perdido parte da motivação depois de tantos anos sem os desfiles. Mas a questão para Silas era maior do que simplesmente colocar novamente as escolas na avenida. Para ele, recuperar o Carnaval significava também recuperar uma parte da própria história da cidade.

O samba como memória
Foi nesse momento da conversa que Silas deixou de falar apenas sobre Carnaval e passou a falar sobre cultura negra, ancestralidade e apagamento histórico. Ele lembrava que a formação cultural de Atibaia também passou pela presença de italianos, libaneses, japoneses e outros grupos que chegaram à cidade. Mas fazia uma distinção fundamental em relação à população negra. “Só que é diferente do povo escravizado. O italiano, o japonês e outros povos que vieram para cá não tiveram o que o povo negro teve. Não tiveram corrente na perna, não tiveram extermínio.” Para Silas, o apagamento fazia parte de um processo histórico mais amplo de dominação. “O apagamento faz parte da colonização, que a gente ainda sofre o processo do colonizador. Esse processo é de dominação. Dominação é apagamento de uma cultura.”

Ele falava da capoeira, das religiões de matriz africana e do próprio samba como manifestações que durante muito tempo foram perseguidas e associadas à marginalidade. “O Carnaval, a Escola de Samba, que também é da cultura africana, da batida de tambores, do samba de roda, foi criminalizado também. A gente era proibido de tocar samba. Era coisa de vagabundo, de bandido.”

Na sua visão, a cultura negra sobreviveu apesar de todo esse processo e acabou incorporada à própria identidade brasileira. “Agora não é só o negro que está com essa cultura. O branco aderiu a isso, inconscientemente e por ser brasileiro. Então a gente tem uma cultura brasileira, da miscigenação, da mistura de raças, com a musicalidade africana.”

O Carnaval foi criminalizado também. A gente era proibido de tocar samba. Era coisa de vagabundo, de bandido.

Silas não via a chegada de outros ritmos como uma ameaça ao samba. Pelo contrário. Enxergava continuidades entre manifestações musicais aparentemente diferentes. “O rap, que começou nos Estados Unidos e se espalhou no mundo, é de africano. O funk é batida de Xangô. Se você for no centro espírita e mandar o cara tocar Xangô e depois escutar um funk, é a mesma batida. Então a cultura continua.”

Uma mistura que resiste e reexiste
Silas falava sobre tudo isso também a partir de sua própria história familiar. Seus avós maternos representavam, segundo ele, parte da mistura que ajudou a formar a população da região. “Meu avô materno é descendente de negro que veio da Bahia. E a minha avó materna é da região. É dos povos originários daqui.” E então definia a si próprio de uma maneira que talvez sintetize toda aquela conversa: “Teve essa união de negro com indígena. Agora eu sou o produto dessa mistura. Uma mistura que resiste e reexiste.”

Silas acreditava que muitos descendentes dos povos indígenas que viviam na região antes da formação da cidade ainda estavam presentes, embora essa história tivesse sido praticamente apagada. Falava também da chegada dos europeus e dos casamentos entre diferentes grupos, lembrando que a sociedade brasileira se formou a partir dessas muitas misturas.

Ao recuperar essas histórias, ele não estava interessado em alimentar ressentimentos. Pelo contrário. Essa talvez seja uma das características mais bonitas de sua fala. Silas defendia o conhecimento histórico como instrumento de consciência. “As pessoas precisam saber o que se ensina na escola e o que é realidade. A gente precisa saber a nossa história para valorizar os nossos ancestrais. Não para ter raiva.”

Era uma posição que repetiria em diferentes momentos da conversa. Ele falava sobre escravidão, racismo, religiosidade e apagamento, mas não havia ódio em sua fala. Havia uma espécie de insistência serena para que as pessoas conhecessem a história e compreendessem como determinadas desigualdades chegaram até o presente. “O racismo hoje não interessa se você tem mãe branca ou pai branco. Se você é preto, você sofre racismo. Então é fenótipo.”

Para ele, falar sobre isso era uma forma de produzir consciência. “Eu acho que isso tem que ser falado. Não para a pessoa ficar com raiva, com ódio. É para ter consciência das coisas. E saber de onde vem a nossa cultura.”

Os tambores continuam
No final da entrevista, voltamos ao Carnaval e à origem do samba. Silas falava dos tambores, do samba de roda e da relação entre a música, a religiosidade e a natureza na cultura africana. “A cultura africana dança para os orixás, para Deus. Oferece oferenda para Deus. Respeita as forças da natureza. O vento, a chuva, o trovão, a floresta, os bichos. Tudo é vida.”

Era também nesse ponto que ele via a importância de preservar e transmitir conhecimento. “As pessoas precisam saber qual é a origem de uma religiosidade africana, o que sofreu o povo africano com a escravidão. Qual foi o processo que tivemos para chegar hoje e ter um Carnaval visto pelo mundo inteiro.”

Silas enxergava ainda o Carnaval como parte da Economia Criativa e como uma atividade capaz de movimentar a cidade. “O Carnaval gera emprego na cidade. O Carnaval gera emprego, além de fomentar o turismo.” Foi assim que terminamos aquela conversa, falando de Carnaval, cultura e memória.

Dois anos depois, ao reler suas palavras, percebo que Silas estava falando de algo muito maior do que uma festa popular. Estava falando de pertencimento, identidade e memória. Falava de uma cultura que foi perseguida, marginalizada e apagada, mas que sobreviveu e se transformou em parte essencial do que somos. Talvez seja por isso que sua ausência seja sentida de maneira tão forte em Atibaia. Silas era uma dessas pessoas que pertencem à cidade. Não apenas porque nasceu aqui ou porque participou de seus movimentos culturais, mas porque ajudou a construir uma memória que agora também passa a ser nossa responsabilidade preservar.

O Carnaval gera emprego na cidade. O Carnaval gera emprego, além de fomentar o turismo.

No velório, entre abraços, lágrimas, lembranças e histórias, ficou evidente o tamanho do carinho que ele despertava. Um homem risonho, generoso, às vezes provocador, mas essencialmente afetuoso. Um artista que cantava, compunha, escrevia e participava. Um homem que conhecia a força de sua ancestralidade e falava dela sem rancor.

A cidade perde um artista e um homem de cultura. Nós perdemos um amigo. Mas a voz de Silas continua. Está nos sambas, nas histórias, nos tambores, nas lembranças daqueles que conviveram com ele e, agora, também nas palavras que deixou registradas. “Uma mistura que resiste e reexiste.”

Talvez não exista maneira melhor de despedir-se dele.