Quando a chuva chega, a prevenção começa antes
Diretor da Defesa Civil de Atibaia, Carlos Henrique de Carvalho, o Carlão, explica como o município se prepara para enchentes, deslizamentos e outros eventos extremos e lembra que a população também faz parte da prevenção
Osni Dias
Atibaia tem uma característica que ajuda a explicar parte dos problemas enfrentados quando o tempo muda: a cidade está entre rios, morros e áreas de declive. Isso significa conviver com diferentes tipos de risco, como enchentes, alagamentos, deslizamentos e ventos fortes. Quem acompanha esses riscos de perto é a Defesa Civil. Em entrevista ao Correio de Atibaia, o diretor do órgão, Carlos Henrique de Carvalho, o Carlão, explicou como funciona o trabalho de preparação do município e quais são hoje algumas das áreas que mais preocupam.
Ele começa lembrando que Defesa Civil não é simplesmente um departamento da Prefeitura. É um sistema que envolve diferentes setores do poder público e também a sociedade. “É um sistema integrado”, ele coloca. Entre os pontos historicamente mais problemáticos estão bairros como Tanque, Terceiro Centenário e Parque das Nações. Carlão explica que há uma diferença entre enchente e alagamento: enquanto a enchente pode chegar de maneira repentina, o alagamento costuma permanecer por mais tempo até que a água consiga escoar. Em 14 de setembro a Prefeitura noticiou que a Defesa Civil e as equipes da Prefeitura acompanharam as áreas mais afetadas e prestaram apoio às famílias.

Uma das ações realizadas pelo município é a desobstrução do Rio Atibaia e a limpeza de rios e córregos. O objetivo é facilitar o escoamento da água e reduzir os efeitos das chuvas. Mas o trabalho não acontece somente quando começa a chover.
Um plano para saber quem faz o quê
O Plano de Contingência é uma das ferramentas utilizadas para organizar a resposta a uma emergência. Na prática, ele funciona como um mapa de responsabilidades. Cada secretaria sabe o que deve fazer e quem precisa ser acionado quando uma ocorrência acontece. Saúde, Serviços e outras áreas podem ser mobilizadas rapidamente, inclusive com equipamentos e máquinas. Essa integração é importante porque um evento extremo raramente é apenas um problema de chuva. Pode envolver pessoas que precisam ser retiradas de suas casas, ruas que precisam ser interditadas, máquinas para liberar vias, atendimento médico, transporte, abrigo e uma série de outras necessidades. O planejamento, portanto, começa antes da emergência. Em 11 de setembro Atibaia reuniu municípios para fortalecer atuação conjunta da Defesa Civil. Neste encontro foram mencionados exemplos de ações conjuntas já realizadas em ocorrências como acidentes, deslizamentos, queimadas e alagamentos.
E os riscos já estão identificados em documentos oficiais do município. O Plano Estratégico de Defesa Civil, publicado em 2025, relaciona áreas de risco geológico e hidrológico em diferentes bairros de Atibaia. Entre elas estão Caetetuba, Centro, Serra do Itapetinga, Jardim Cerejeiras, Jardim Paulista/Jardim do Lago, Jardim Imperial, Tanque, Portão e Vitória Régia.
No Jardim Imperial, por exemplo, o documento aponta risco de alagamento e inundação em áreas próximas aos córregos e também risco de escorregamento em regiões de maior declividade. Entre os fatores identificados estão a ocupação de áreas de várzea, habitações precárias, baixa percepção de risco, falta de drenagem e construções sem acompanhamento técnico.
O problema pode nascer onde antes não existia
Para Carlão, o crescimento urbano também pode criar novos riscos. Uma área que não apresentava grandes problemas quando tinha poucas casas pode mudar completamente quando recebe muitas construções sem a infraestrutura necessária. É uma questão que vai além da chuva.
Imagine uma região onde antes havia uma casa para três pessoas e, algum tempo depois, surge um empreendimento com dezenas de moradores. A quantidade de pessoas, carros, água produzida, resíduos e demanda por infraestrutura muda completamente a relação daquele lugar com o território. Por isso, preparar Atibaia para eventos extremos também significa discutir como a cidade cresce.
A Defesa Civil tem ainda uma preocupação prática: a percepção de risco da própria população. Segundo Carlão, ainda é comum encontrar pessoas tentando atravessar áreas alagadas de carro, motocicleta ou mesmo a pé. Há também moradores que resistem a deixar suas casas durante uma emergência por medo de furtos. Só que a água não oferece margem para esse tipo de aposta. Em uma ocorrência recente no Tanque, uma pessoa idosa, acamada, precisou ser retirada de casa. Quando a equipe voltou ao imóvel para buscar documentos, a água já chegava à altura do peito. É nesses momentos que uma estatística vira uma história humana.
Defesa Civil também somos nós
Existe ainda um problema que parece pequeno, mas pode aumentar os efeitos de uma chuva: o lixo jogado em rios e córregos. Carlão conta que as equipes realizam limpeza com frequência e encontram de tudo: bicicletas, brinquedos, bolas e grandes pedaços de isopor. A população, portanto, não está fora da equação.
Evitar o descarte irregular, respeitar áreas de risco, não tentar atravessar pontos alagados e seguir os alertas são atitudes tão importantes quanto o trabalho realizado pelas equipes municipais. Da mesma maneira, quem pretende comprar um imóvel deve procurar informações sobre o local. Carlão recomenda verificar a situação do terreno, consultar a Defesa Civil e o IPT e procurar saber se a área tem histórico de problemas. É uma prevenção simples, mas que pode evitar uma decisão muito cara no futuro.
Atibaia está mais preparada?
Na avaliação de Carlão, sim. A cidade avançou em treinamento, equipamentos, simulados e organização das equipes. A Defesa Civil passou a contar com novos veículos e equipamentos e mantém treinamento para situações como incêndios e enchentes. Mas estar mais preparada não significa estar livre de riscos. O próprio crescimento da cidade pode produzir novas situações de vulnerabilidade. É justamente por isso que o entrevistado resume bem o papel da Defesa Civil: “O objetivo não é ir no desastre, né? O objetivo é a gente prevenir.”
A frase aproxima a atuação da Defesa Civil daquilo que já apareceu nas entrevistas de Bruno Bainy e Samantha Proença. A previsão ajuda a entender o que pode acontecer. O planejamento urbano ajuda a reduzir os riscos. A Defesa Civil organiza a resposta. Mas existe uma dimensão que ainda falta explorar: o que acontece quando o clima deixa de ser apenas um problema ambiental e passa a afetar diretamente a saúde das pessoas? É essa conversa que vem a seguir.
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