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Marcelo Laxe: “a adaptação climática começa pelo planejamento do território”

Ativista ambiental e uma das vozes mais presentes no debate sobre o futuro de Atibaia relaciona mudanças climáticas, segurança hídrica, ocupação do solo e participação da sociedade nas decisões sobre a cidade

Osni Dias

A discussão sobre mudanças climáticas costuma começar pelo clima: temperaturas mais altas, períodos de estiagem, chuvas intensas, ondas de calor. Em Atibaia, porém, a dimensão do problema aparece também na maneira como a cidade ocupa seu território, administra a água, preserva suas áreas naturais e decide onde e como pode crescer.

É nesse ponto que Marcelo Laxe concentra sua análise. Ativista ambiental e uma das vozes presentes há anos nos movimentos de defesa do meio ambiente em Atibaia, ele participou de debates sobre planejamento urbano, Plano Diretor, regras construtivas e uso do território desde os primeiros anos do movimento Salve Atibaia. Para Laxe, a adaptação climática não pode ser pensada separadamente do planejamento da cidade.

“A adaptação climática precisa começar pelo planejamento ideal do uso do território.”

A ideia se aproxima de uma preocupação apresentada anteriormente na série por Bruna Locardi. A bióloga chamou atenção para a relação entre relevo, impermeabilização do solo, circulação da água e ocupação urbana. Laxe parte de outra experiência, mas chega a uma conclusão semelhante: diante de um clima mais extremo, não basta preparar a cidade para responder aos eventos. É preciso rever as condições que podem aumentar seus efeitos.

Quando os extremos deixam de ser exceção
Para Laxe, o principal desafio climático da região está justamente na intensificação dos extremos. A cidade deixa de lidar apenas com períodos relativamente previsíveis de chuva e seca e passa a enfrentar estiagens prolongadas, ondas de calor, baixa umidade e chuvas concentradas em intervalos curtos. Essa mudança exige outra maneira de pensar a infraestrutura urbana. “Não basta mais simplesmente ampliar galerias, canalizar córregos ou construir estruturas para transportar rapidamente a água”, afirma. A cidade precisa também reter, infiltrar, armazenar e distribuir melhor a água, preservando a permeabilidade do solo e evitando a ocupação de áreas de várzea e de risco. 

A questão aparece de forma recorrente entre os entrevistados pelo Correio de Atibaia. Bruna Locardi também defendeu a preservação de áreas de absorção, corpos d’água e áreas naturais como parte da própria segurança da cidade. Em vez de enxergar esses espaços como áreas disponíveis para ocupação, a perspectiva é tratá-los como componentes da infraestrutura urbana.

Uma cidade não funciona em pedaços
Laxe evita atribuir a responsabilidade pela mudança exclusivamente ao governo, às empresas ou à população. Para ele, o problema está também em modelos de planejamento que continuam aplicando soluções antigas a problemas que mudaram. O poder público trabalha dentro de suas prioridades e da legislação, empresas respondem às regras existentes e a população muitas vezes aceita determinadas soluções porque são apresentadas como inevitáveis. 

A mudança, em sua avaliação, precisa passar principalmente pelo planejamento público, com processos mais transparentes, participação social, conhecimento técnico e uma visão integrada da cidade. Essa visão sistêmica aparece com clareza quando ele fala da água. Uma obra realizada em determinado trecho de um córrego não pode ser analisada apenas naquele ponto.

“Um córrego não termina onde começa uma obra. A água vem de montante, passa pelo trecho urbano e segue para jusante.”

Por isso, uma solução localizada pode simplesmente transferir o problema para outro lugar. Solo, vegetação, drenagem, ocupação urbana, mobilidade, impermeabilização, saneamento, biodiversidade e capacidade de retenção precisam ser considerados conjuntamente.

“A cidade precisa funcionar como um sistema.”

Onofre, bem proximo da nascente, em Bom Jesus dos Perdões

A água como patrimônio da cidade
A água é um dos pontos centrais da entrevista. O Salve Atibaia escolheu o tema como foco de trabalho neste ano, justamente diante das características geográficas e hídricas do município e dos problemas que a cidade enfrenta. Para Laxe, segurança hídrica não significa simplesmente ter água disponível hoje. Significa garantir água nos próximos anos. Atibaia depende da captação e do tratamento de água do Rio Atibaia e do Córrego do Onofre e, por isso, a segurança hídrica precisa envolver proteção de mananciais, recuperação de nascentes e córregos, saneamento, redução de perdas, retenção da água da chuva e planejamento urbano. 

É uma questão que ganhará ainda outra dimensão na próxima reportagem desta série, com Néia Costa, que acompanha de perto a situação do Córrego do Onofre e a relação entre os cursos d’água, os mananciais e o futuro ambiental de Atibaia.

O problema não é apenas fazer a água escoar
Quando períodos de estiagem são seguidos por chuvas intensas, o impacto sobre os cursos d’água pode se ampliar. A menor vazão reduz a capacidade de diluição de determinados poluentes. Depois, grandes volumes de chuva podem carregar sedimentos, resíduos, contaminantes e materiais das áreas urbanizadas para os rios e córregos. 

No caso do Onofre, Laxe chama atenção para os resultados do monitoramento realizado por voluntários do programa Observando os Rios, da SOS Mata Atlântica, que vêm registrando condições ruins de qualidade da água em determinados pontos. Para ele, isso mostra que um córrego não pode ser tratado apenas como parte de um sistema de drenagem.

“Precisamos recuperar a qualidade da água.”

A observação reforça outra ideia que começa a se repetir entre os entrevistados: água não é apenas aquilo que precisa ser retirado rapidamente das ruas quando chove. É um recurso que precisa permanecer no território, ser protegido e fazer parte do planejamento da cidade.

Participação antes que a decisão seja irreversível
Para Laxe, a participação da população também precisa mudar de lugar. Não basta reclamar de uma obra depois que ela foi definida. O cidadão deve perguntar ao poder público quais são os planos para a cidade e, diante de cada grande decisão, questionar: qual é o estudo? Qual é o projeto? Qual é o impacto? Existe alternativa? Quanto vai custar? Como será fiscalizado? E de que maneira a decisão considera o futuro climático de Atibaia? 

“Participação popular não é ser contra tudo. É participar das decisões antes que elas se tornem irreversíveis.”

A preocupação também aparece quando Laxe fala do crescimento urbano. Para ele, ter legislação é fundamental, mas não suficiente. É preciso verificar como as regras são aplicadas, como os empreendimentos são aprovados, quanto de área verde permanece preservada, quanto de solo continua permeável e se a infraestrutura existente consegue suportar o crescimento. E ele propõe uma pergunta que resume boa parte de sua visão sobre o futuro da cidade: “Essa cidade que estamos construindo hoje continuará funcionando quando enfrentarmos os eventos climáticos que teremos amanhã?”

Desenvolvimento também pode significar preservar
Laxe não coloca desenvolvimento econômico e proteção ambiental em lados opostos. O problema, segundo ele, surge quando crescer passa a significar simplesmente ocupar, impermeabilizar, verticalizar e eliminar áreas naturais. Para uma cidade que tem na natureza parte importante de sua identidade, ele vê uma oportunidade econômica justamente na conservação.

Turismo, hotelaria, restaurantes e comércio podem reduzir consumo de água e energia, administrar melhor resíduos, proteger áreas naturais e incorporar educação ambiental. Atibaia, afirma, pode transformar sua natureza em estratégia de desenvolvimento sustentável. Não basta, portanto, vender a imagem de uma cidade cercada pela natureza. Para Laxe, é preciso construir uma cidade que efetivamente cuide da natureza.

Das Cinzas, curta-metragem dirigido e roteirizado por Ian Iordanu

A prevenção começa antes do incêndio
A mesma lógica aparece quando o assunto são as queimadas e a proteção da Pedra Grande. Fiscalização, educação ambiental, monitoramento, identificação de áreas de risco, manutenção de aceiros quando tecnicamente indicada, resposta rápida e responsabilização são medidas importantes. Mas Laxe acrescenta outra dimensão: proteger a estrutura ecológica da região. A Pedra Grande e seu entorno, afirma, não são apenas uma paisagem. São parte de um sistema ambiental que presta serviços ecológicos à cidade. 

Nesse ponto, ele faz questão de reconhecer o trabalho da SIMBiOSE, que, segundo ele, tem atuado diretamente no combate aos primeiros focos de incêndio e na proteção do cinturão verde de Atibaia. A lógica é a mesma que aparece em outros pontos da entrevista: prevenir custa menos do que remediar e exige que a cidade enxergue o problema antes que ele se transforme em emergência.

O futuro começa no território
Ao responder qual deveria ser a prioridade ambiental da administração municipal, Laxe amplia a pergunta. Em vez de escolher uma única ação, propõe uma política integrada de segurança hídrica e adaptação climática, articulada ao planejamento urbano e ao desenvolvimento sustentável. Isso significa reunir saneamento, recuperação de rios e nascentes, proteção das áreas verdes, drenagem sustentável, redução da impermeabilização, prevenção de enchentes, crescimento ordenado e controle da ocupação territorial. No final, sua proposta retorna ao ponto de partida: a relação da cidade com a água.

“Precisamos parar de tratar a água como um problema que precisamos simplesmente afastar da cidade e começar a tratá-la como um recurso que precisamos proteger, reter e integrar ao território.”

É aí que ele coloca as soluções baseadas na natureza no centro da mudança de paradigma. Córregos vivos, várzeas preservadas, parques lineares, jardins de chuva e áreas permeáveis não deveriam ser vistos como obstáculos ao crescimento urbano. “São infraestrutura.” Essa a questão começa a se tornar mais evidente à medida que as diferentes vozes desta série se encontram: preparar Atibaia para a mudança climática não significa apenas construir uma cidade capaz de resistir ao que vem de fora. Significa repensar a própria cidade, o território que ocupa e a maneira como se relaciona com a água, a vegetação e seus habitantes.

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