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Bruna Locardi: “o território também produz o risco”

Bióloga e pesquisadora ambiental mostra como a forma de ocupar Atibaia interfere na água, na biodiversidade e na capacidade da cidade de enfrentar as mudanças climáticas

Atibaia costuma ser apresentada a partir de suas paisagens: a Pedra Grande, as serras, os rios, as áreas verdes. Mas o mesmo território que dá identidade à cidade também determina a maneira como a água se movimenta, onde ela infiltra, onde pode se acumular e quais áreas ficam mais expostas quando uma chuva intensa acontece.

Para a bióloga pela Universidade de São Paulo e mestre pela UNESP, Bruna Locardi, esse é um dos pontos centrais que precisam entrar na discussão sobre o futuro de Atibaia. Integrante de iniciativas de conservação ambiental e acompanhamento do território, ela chama atenção para uma relação que nem sempre aparece quando se fala de mudanças climáticas: a forma como a cidade ocupa o solo também pode produzir risco.

“A cidade cresce sem levar em consideração o seu relevo e as características geográficas e ambientais que determinam onde a água cai, como ela infiltra e por onde ela sai”, afirma. Para Bruna, Atibaia vem assegurando o direito de ocupar, construir e urbanizar acima da obrigação social e legal de preservar o meio ambiente e a segurança de todos. O problema, segundo ela, não está simplesmente em crescer. Está em crescer sem considerar os limites e as características do território.

Quando o solo deixa de absorver a água
Em uma cidade marcada por serras e áreas inclinadas, a expansão urbana pode aumentar os riscos de enchentes, enxurradas e deslizamentos. Bruna ressalta, porém, que isso não significa que áreas de relevo mais complexo não possam ser ocupadas. A questão está na maneira como essa ocupação acontece. “Há como ocupar minimizando esses riscos”, afirma. Ela defende construções ambientalmente responsáveis, com a manutenção máxima das áreas florestadas, dos corpos d’água naturalizados e das áreas de preservação permanente, além de baixas taxas de ocupação e impermeabilização.

A impermeabilização acontece quando o solo natural é substituído por construções, ruas, estacionamentos, calçadas e outras superfícies que dificultam a infiltração da água. A consequência é que a chuva passa a escoar mais rapidamente pela superfície. Bruna explica que a água tende a correr das áreas mais altas para as áreas mais baixas e planas, justamente onde pode ocorrer o acúmulo que provoca enchentes. Ela cita como exemplo a área de várzea do Rio Atibaia.

Há ainda outro problema: os bairros mais antigos foram implantados quando os volumes de chuva considerados nos sistemas de drenagem eram menores do que os observados atualmente. Se, ao mesmo tempo, as áreas de maior inclinação próximas às serras continuam sendo ocupadas e impermeabilizadas, os sistemas de drenagem podem não acompanhar essa nova realidade.

É nesse cenário que aparecem as enxurradas: a água passa a correr mais pela superfície do que pelos sistemas subterrâneos. E existe uma característica do território que, na visão da bióloga, deveria ser tratada como parte da própria infraestrutura da cidade: as áreas de extravasamento dos rios.

Os “piscinões naturais”
Quando um rio transborda durante uma chuva intensa, a água precisa de espaço. As áreas de extravasamento funcionam justamente como espaços naturais de recepção dessas águas. Bruna as define como “grandes bacias de recepção das águas pluviais” e “piscinões naturais”. Por isso, defende que esses locais sejam estudados para a criação de parques e áreas protegidas, em vez de receberem novas ocupações.

A ideia é simples: em vez de lutar contra a água depois que ela chega, preservar espaços para que ela possa ocupar temporariamente o território sem atingir áreas habitadas. É uma mudança importante de perspectiva. A área que muitas vezes parece “vazia” ou disponível para ocupação pode, na realidade, estar desempenhando uma função essencial para a própria segurança da cidade.

Quando a água também precisa chegar ao subsolo
A relação entre vegetação e água não termina na superfície. Bruna chama atenção para as áreas de inclinação média cobertas por vegetação, que funcionam naturalmente como áreas de recarga dos lençóis freáticos. Nesses locais, a água encontra condições de infiltrar no solo de maneira mais lenta e gradual.

Quando essas áreas são ocupadas e impermeabilizadas, essa capacidade diminui. E isso pode ter uma consequência que aparece justamente quando chove menos: menor recarga dos lençóis freáticos significa menor disponibilidade de água durante os períodos de estiagem. A discussão sobre chuva intensa, portanto, também é uma discussão sobre a água que estará disponível quando a chuva não vier.

Marmeleiro e bacia dos Pintos: onde o território mostra seus limites
Essa preocupação aparece de maneira concreta na região do Marmeleiro e da bacia dos Pintos, onde diagnósticos ambientais apontaram impactos relacionados à expansão de loteamentos e à impermeabilização.

Para Bruna, algumas dessas áreas são sensíveis demais para receber ocupação intensa. Elas funcionam como zonas de amortecimento do Parque Estadual do Itapetinga e possuem características naturais que podem representar riscos de enxurradas e escorregamentos. São também áreas importantes para a recarga dos lençóis freáticos. Na avaliação da bióloga, mesmo onde não exista uma regulamentação específica determinando a preservação integral, algumas regiões deveriam manter sua feição natural ou rural, com ocupação cautelosa e baixíssimo adensamento. O ponto central é que o território possui funções que não aparecem necessariamente em uma planta de loteamento.

Um empreendimento não existe sozinho
A discussão ganha outra dimensão quando se considera a implantação de grandes empreendimentos próximos à Serra do Itapetinga, à Pedra Grande e a outras áreas ambientalmente sensíveis. Para a bióloga, não basta avaliar cada empreendimento isoladamente.

“O direito à ocupação é garantido desde que não fira o bem coletivo, a segurança, o bem-estar dos cidadãos, e o equilíbrio ambiental”, afirma. Na sua avaliação, os projetos precisam ser analisados também pelos impactos acumulados: a soma de diferentes empreendimentos pode produzir consequências que não aparecem quando cada um é observado separadamente. É o que ela chama de olhar para a “malha natural e humana” como uma estrutura inseparável.

A mesma lógica utilizada para avaliar a infraestrutura de serviços essenciais – água, energia, transporte, saneamento – deveria considerar aquilo que Bruna chama de “infraestrutura ecossistêmica”: os serviços que a própria natureza presta à cidade, como produção de água, regulação climática e manutenção da biodiversidade.

A capacidade de suporte do território\
A questão fica ainda mais ampla quando se olha para o Sistema Cantareira. Bruna chama atenção para o fato de que a ocupação dessa região interfere não apenas nos fragmentos remanescentes de Mata Atlântica, que se tornam mais vulneráveis com a fragmentação, mas também nos reservatórios que abastecem cerca de 9 milhões de pessoas, segundo os dados apresentados por ela.

Cada novo empreendimento, explica, acrescenta uma carga de impacto ambiental decorrente da transformação do uso do solo. Essa carga não é igual em todos os lugares e, por isso, deveria ser considerada de acordo com as características de cada área. Ela lembra ainda que a legislação estadual da Área de Proteção Ambiental do Sistema Cantareira prevê que a ocupação seja modulada de acordo com os impactos somados, mas afirma que ainda faltam estudos ou recomendações efetivas para orientar essa avaliação.

A natureza também é infraestrutura
Nascentes, matas ciliares, áreas úmidas e outras áreas vegetadas não são apenas elementos paisagísticos. Para ela, elas são parte da infraestrutura que mantém a cidade funcionando. A vegetação ajuda na contenção das enxurradas, no controle do assoreamento, na drenagem e na recarga dos aquíferos. E há também uma dimensão econômica nessa equação. “Manter as soluções da natureza para a contenção de enxurradas, assoreamento dos rios, drenagem e recarga faz a cidade economizar”, afirma.

Bruna cita ainda uma estimativa segundo a qual, para cada R$ 1 investido em áreas verdes e prevenção, R$ 7 seriam economizados em mitigação, atribuindo o dado ao Ministério da Integração e do Desenvolvimento Regional. Ela também menciona uma estimativa de que pelo menos 8% das margens de nascentes e rios precisariam ser restauradas para assegurar a segurança hídrica do Sistema Cantareira. Mais do que números, sua defesa é pela compreensão de que uma árvore adulta e um metro quadrado de solo permeável desempenham funções que não podem ser facilmente substituídas.

Áreas protegidas sob pressão
Atibaia está inserida em duas importantes áreas protegidas estaduais: o Parque Estadual do Itapetinga e a APA Cantareira. São instrumentos criados justamente para conciliar conservação e uso sustentável do território. Mas, na avaliação de Bruna, a proteção não tem acompanhado a velocidade da expansão urbana. “Não, não estamos suficientemente protegidos”, afirma. Segundo ela, a pressão da expansão urbana chegou “muito antes e muito mais rápido” do que a capacidade de regulamentação e atuação do poder público estadual responsável pelas unidades de conservação.

É uma avaliação da entrevistada que coloca novamente a questão do tempo no centro da discussão: o território muda rapidamente, enquanto regras, estudos e mecanismos de proteção podem avançar em outro ritmo.

Estamos preparados para o clima que vem?
A pergunta é inevitável dentro de uma reportagem sobre mudanças climáticas. Para Bruna, a resposta é preocupante. “As piores previsões vêm sendo superadas, e nós não estamos preparados nem para as melhores.” Ela relaciona essa avaliação ao aumento da temperatura global e à ocorrência de eventos extremos.

Mas sua resposta não termina no poder público ou nos recursos disponíveis. Para ela, é necessário também o engajamento da sociedade. Isso significa evitar que os riscos existentes sejam agravados por ocupações inadequadas e adotar o princípio da precaução quando houver indícios de que determinada intervenção possa produzir danos ambientais, sociais ou culturais. Ao mesmo tempo, a população precisa estar preparada para saber como agir quando os eventos extremos acontecerem e recuperar uma noção de corresponsabilidade pelo bem comum.

E se a natureza fizer parte do planejamento?
Se a ocupação do território pode produzir riscos, ela também pode ajudar a reduzi-los. Bruna defende a criação de corredores de conectividade formados por vegetação nativa, acompanhando rios e córregos e conectando diferentes fragmentos de floresta preservada ou restaurada.

O conceito pode parecer técnico, mas a ideia é bastante concreta: em vez de tratar cada área verde como um pedaço isolado, criar uma rede contínua de vegetação que permita que a natureza continue funcionando dentro da cidade.

Esses corredores poderiam incorporar jardins de chuva, bacias de infiltração, parques com áreas de extravasamento e árvores de grande porte. Bruna cita experiências como a de Curitiba e defende o uso de espécies nativas capazes de criar sombra e favorecer a infiltração da água. O ponto fundamental, segundo ela, é que essas soluções não sejam pontuais. Precisam fazer parte de uma estratégia integrada em escala urbana.

Três prioridades
Quando convidada a escolher apenas três medidas para tornar Atibaia mais resiliente às mudanças climáticas, Bruna não hesita: educação ambiental e climática, além de corredores de conectividade. E boas práticas ambientais no meio rural, incluindo conservação do solo e restauração ecológica das áreas de preservação permanente. As três propostas, para ela, fazem parte de uma mesma questão: o uso e a ocupação racional e responsável do solo.

Uma cidade menor, mais adensada e muito verde
Ao fim da entrevista, a pergunta deixa de ser sobre o problema e passa a ser sobre o futuro. Que cidade Atibaia poderia ser daqui a 20 ou 30 anos se a preservação ambiental, a água e a capacidade de suporte do território estivessem no centro do planejamento?

A resposta de Bruna é curta, mas talvez seja uma das imagens mais fortes de toda a série.  “Provavelmente uma cidade com uma área urbana menor, mais adensada, e muito, muito verde, com espaços de convivência integrados a natureza.” Talvez seja esse o desafio colocado pelas mudanças climáticas: não apenas preparar Atibaia para a próxima tempestade, mas decidir que tipo de cidade queremos construir antes que a próxima tempestade nos obrigue a decidir por nós.

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