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Silvana Cotrim: “a violência contra a mulher negra é específica”

Fundadora do Quilombo Urbano Negra Visão afirma que racismo e violência de gênero se sobrepõem e defende que os serviços públicos estejam preparados para reconhecer essa realidade

Há uma pergunta que atravessa qualquer discussão sobre a violência contra a mulher: quem a rede de proteção consegue enxergar? Para Silvana Cotrim, fundadora do Quilombo Urbano Negra Visão, a resposta exige olhar para além do gênero. A mulher negra pode estar submetida à violência dentro de casa, mas também carregar, no mesmo momento, o peso do racismo, da discriminação e de uma série de estereótipos que interferem até mesmo na maneira como sua denúncia é recebida. “Quando a gente fala de violência, a gente tem que considerar muito a questão racial”, afirma Silvana.

A observação desloca a discussão. Não se trata apenas de reconhecer que mulheres negras também são vítimas de violência, mas de compreender que a experiência da violência pode assumir características próprias quando racismo e violência de gênero se encontram.

Quando a gente fala de violência, a gente tem que considerar muito a questão racial

Segundo Silvana, essa sobreposição pode aparecer tanto no espaço doméstico quanto fora dele. A mulher negra pode sofrer violência dentro de uma relação e, ao procurar ajuda, encontrar outra camada de vulnerabilidade relacionada à sua condição racial. Em determinadas situações, em vez de ser imediatamente reconhecida como vítima, pode ser vista como agressora ou ter sua narrativa colocada sob suspeita. É justamente nesse ponto que, para ela, a rede de proteção precisa avançar.

O atendimento policial, psicológico e de saúde, por exemplo, não pode ignorar a dimensão racial presente na experiência daquela mulher. Não basta oferecer formalmente a mesma porta de entrada para todas se os profissionais não estiverem preparados para reconhecer que as histórias, os contextos e as formas de violência podem ser diferentes. “A violência contra a mulher negra é específica”, resume Silvana.

A afirmação não significa criar uma hierarquia entre diferentes formas de violência, mas reconhecer que gênero e raça não funcionam de maneira isolada. A mulher negra pode enfrentar simultaneamente estruturas de violência que se reforçam e produzir consequências diferentes em sua trajetória. Essa percepção também muda a maneira de pensar políticas públicas.

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Para Silvana, uma rede verdadeiramente preparada para proteger mulheres precisa ser capaz de reconhecer essas diferenças desde o primeiro atendimento. Isso envolve formação dos profissionais, escuta qualificada e compreensão de que determinadas manifestações de racismo podem estar presentes numa situação de violência de gênero mesmo quando não aparecem imediatamente como o elemento principal da denúncia.

Há ainda uma questão de representatividade e pertencimento. Quando uma mulher chega a um serviço público fragilizada, a maneira como é recebida pode determinar se ela continuará procurando ajuda ou se voltará para casa levando consigo a sensação de que sua palavra não foi reconhecida.

É nesse intervalo entre a existência do serviço e a capacidade de acolher quem chega até ele que Silvana coloca uma das questões mais importantes de sua entrevista: não basta que a rede exista. Ela precisa enxergar as mulheres que procura proteger. E, para ela, enxergar a mulher negra significa reconhecer que racismo e violência de gênero podem fazer parte da mesma história.

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A entrevista de Silvana faz parte da série de conversas do Correio de Atibaia com mulheres que atuam em diferentes pontos da rede de enfrentamento à violência. Mariana Farcetta, Gabriela Santos, Vanessa Martins e Silvana Cotrim apresentam, a partir de lugares diferentes, uma mesma constatação: interromper o ciclo da violência exige informação, acolhimento, proteção e uma rede capaz de agir antes que a violência alcance o seu desfecho mais extremo.

No caso das mulheres negras, Silvana acrescenta uma palavra indispensável a essa rede: reconhecimento. E talvez seja justamente aí que esteja uma das tarefas mais difíceis da proteção: não apenas abrir a porta, mas saber quem está chegando.

Serviço
Quilombo Urbano Negra Visão
Rua Dr. Osvaldo Urioste, 41, Centro, Atibaia
Instagram: @negra.visao