AtibaiaCulturaDiversidadeExclusivasNotíciasServiços

Atibaia celebra o primeiro Dia Nacional das Congadas

Com tradição de mais de dois séculos, os quatro ternos da cidade se reúnem em 17 de outubro para celebrar uma história de fé, memória e cultura que continua presente entre as novas gerações.

Nesta quarta-feira, 7 de outubro, o Brasil celebra pela primeira vez o Dia Nacional dos Congados e Reinados. A data foi instituída pela Lei Federal nº 15.463, sancionada em julho deste ano, como reconhecimento a uma das mais importantes manifestações da cultura afro-brasileira, que reúne religiosidade, música, dança, memória e identidade. Em Atibaia, a data tem um significado especial. A cidade mantém quatro ternos de Congada – Azul, Vermelho, Verde e Rosa – ligados a famílias e comunidades que preservam a tradição há gerações. Não se trata apenas de uma manifestação que sobreviveu ao tempo. Trata-se de uma parte da própria história da cidade.

A pesquisa da historiadora e pesquisadora Lilian Vogel é uma das principais referências para compreender essa história. Em seu livro “Viva São Benedito! Viva a Mãe do Rosário!” – A dança da Congada e as tradições seculares em Atibaia no Ciclo Natalino, publicado em 2013, Vogel aponta que os relatos das primeiras manifestações estruturadas remontam a 1769, quando Atibaia foi elevada à condição de vila. Naquele momento, a localidade tinha cerca de 1.500 habitantes, dos quais 354 eram pessoas escravizadas.

A pesquisa também ajuda a compreender uma dimensão menos conhecida dessa história. A população negra não tinha acesso à Igreja Matriz de São João Batista e construiu, por volta de 1776, a Igreja de Nossa Senhora do Rosário. Era no espaço ao redor dela que aconteciam o batuque e o chamado “bailado guerreiro”, além dos rituais ligados aos mastros de Nossa Senhora do Rosário e de São Benedito. É uma história marcada pela fé, mas também pela necessidade de preservar uma identidade e uma forma própria de celebrar. Ao longo dos séculos, os ternos foram incorporando mudanças, mas conservaram elementos fundamentais de seus rituais, músicas, danças e relações familiares.

Um estudo de Ana Beatriz Pereira de Andrade e Mariana Targa Gonçalves, “Memórias em Festa: uma cartografia das Congadas em Atibaia“, também chama atenção para a importância da memória oral na permanência dessa tradição. O conhecimento não está apenas nos registros escritos. Ele é transmitido de uma geração para outra, dentro das próprias famílias e comunidades.

José Alvim conhece essa história também pela memória familiar. Cresceu ouvindo os tambores, vendo os ternos e acompanhando os festejos realizados pelos avós. Para ele, a explicação para a permanência das Congadas é simples e, ao mesmo tempo, profunda. “A fé que passa de avó pra filho e pra neto é a fé que tá dentro das pessoas.” Alvim também chama atenção para a presença de crianças e jovens nos quatro ternos. É um sinal importante. Uma tradição pode ter séculos de existência, mas só continua sendo tradição quando encontra quem esteja disposto a recebê-la e levá-la adiante.

É justamente aí que aparece um dos desafios do presente. A manutenção das Congadas depende do trabalho de famílias, mestres, festeiros e integrantes dos ternos. Há responsabilidades financeiras, ensaios, organização, preparação dos rituais e todo um trabalho que muitas vezes não aparece para quem vê apenas o resultado da festa. Para Alvim, esse esforço não pode ser deixado de lado. Uma manifestação cultural com mais de dois séculos não deveria depender apenas da disposição individual daqueles que, geração após geração, decidiram mantê-la viva.

Essa é uma questão que ganha ainda mais importância neste primeiro Dia Nacional dos Congados e Reinados. O reconhecimento federal é significativo, mas a existência de uma data no calendário não garante, por si só, a continuidade de uma tradição. É preciso conhecê-la, registrá-la, valorizá-la e criar condições para que as novas gerações possam continuar participando. E talvez seja o ponto mais importante da história das Congadas de Atibaia: elas não pertencem apenas ao passado.

Quando fala de sua infância, dos avós, dos tambores e dos ternos que faziam parte de sua rotina, Alvim não fala apenas de lembranças pessoais. Fala de uma cidade que se reconhece em suas próprias tradições. “Eu enxergo a minha cidade ali dentro”, revela. É uma frase que resume muito do que as Congadas representam para Atibaia. Uma cidade pode ser contada por seus prédios, suas ruas, seus documentos e suas fotografias. Mas também pode ser reconhecida pelos sons, pelos gestos, pelas festas e pelas pessoas que continuam repetindo, geração após geração, aquilo que aprenderam de seus antepassados.

Em 17 de outubro, os quatro ternos estarão novamente reunidos. O Encontro das Quatro Congadas de Atibaia será realizado de forma independente, na Praça do Cruzeiro, junto à Escola Florêncio Pires de Camargo, reunindo os ternos Azul, Vermelho, Verde e Rosa. A mudança de local ocorreu justamente porque a procura pelo encontro foi maior do que a organização esperava. A pequena Capela Nossa Senhora Aparecida, conhecida como Capela do Lúcio, não comportaria o público previsto, e a preocupação com segurança e conforto levou à transferência para um espaço maior.

Há algo de simbólico nisso. Uma tradição que precisa de espaço para continuar existindo encontrou um espaço maior porque mais pessoas quiseram estar presentes. Talvez seja uma boa imagem para este primeiro Dia Nacional das Congadas: uma manifestação que nasceu há séculos, foi transmitida dentro das famílias e continua encontrando lugar na cidade.

Cabe à própria cidade reconhecer o que essas pessoas estão fazendo. Em 17 de outubro, a história estará novamente nas ruas.