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Mulher Kaiowá: quando a violência não termina na agressão

Na série de entrevistas do Correio de Atibaia sobre a violência contra as mulheres, Micheli Alves Machado fala sobre os desafios enfrentados pelas mulheres indígenas, a dificuldade de acesso à proteção e à Justiça e a relação entre violência, território e políticas públicas

Osni Dias

Às margens da MS–156, praticamente coladas ao perímetro urbano de Dourados, as aldeias Jaguapiru e Bororó integram um território onde vivem milhares de indígenas Guarani, Kaiowá e Terena. A proximidade com a cidade, porém, não significa necessariamente proximidade com os serviços públicos, com a Justiça ou com as políticas de proteção. Foi ali, na Jaguapiru, que conheci Micheli Alves Machado, há mais de duas décadas. O tempo passou, nossas trajetórias seguiram caminhos diferentes, mas o reencontro agora, para esta entrevista, trouxe também a possibilidade de olhar para aquele território com outras perguntas – especialmente sobre a violência que atinge as mulheres indígenas.

Micheli Machado é mulher indígena do povo Kaiowá, pedagoga, mestre em Educação e doutoranda pela Universidade Federal da Grande Dourados. Professora de língua Guarani, atua também como intérprete e na escuta especializada junto ao Tribunal de Justiça de Mato Grosso do Sul. Na conversa com o Correio de Atibaia, ela chama atenção para uma questão que costuma ficar escondida quando se fala em violência contra a mulher indígena: não basta olhar para a agressão. É preciso olhar para o território, para a distância dos serviços, para a pobreza, para o racismo, para as barreiras de comunicação e para a forma como o Estado compreende – ou não compreende – a realidade dessas mulheres.

E há um cuidado essencial em sua fala: reconhecer as especificidades da mulher Kaiowá não significa atribuir a violência à cultura indígena. Significa compreender as diferentes camadas de vulnerabilidade que podem se sobrepor e dificultar a denúncia, a proteção e o acesso à Justiça. Mais do que falar pelas mulheres Kaiowá, Micheli defende que elas sejam ouvidas na construção das políticas públicas destinadas a protegê–las.

Correio de Atibaia – como a violência contra as mulheres é percebida e vivenciada dentro das comunidades Kaiowá?
Micheli – A violência contra as mulheres Kaiowá precisa ser compreendida dentro da realidade social, cultural e territorial em que elas vivem. Ela não se limita à agressão física. Muitas mulheres vivenciam também violência psicológica, moral, sexual, patrimonial e situações de abandono, ameaças e controle. Entretanto, é importante não olhar para essa realidade apenas a partir de conceitos externos, porque a forma como uma mulher indígena percebe, enfrenta e fala sobre a violência está relacionada à sua família, à comunidade, à sua cultura, à espiritualidade e ao território. Também precisamos ter cuidado para não afirmar que a violência é uma característica da cultura Kaiowá. A violência contra a mulher não pode ser naturalizada como parte da cultura indígena. Muitas vezes, ela é agravada por situações históricas de desigualdade, perda territorial, pobreza, alcoolismo, conflitos familiares e pela própria violência estrutural que os povos indígenas sofrem.

Correio de Atibaia – A violência contra as mulheres Kaiowá é diferente daquela sofrida pelas mulheres não indígenas?
Micheli – Existem formas de violência que são comuns às mulheres indígenas e não indígenas. O que muda, muitas vezes, são as condições em que essa violência acontece e as possibilidades que cada mulher possui para enfrentá–la. Para uma mulher Kaiowá, denunciar uma violência pode significar lidar não apenas com o agressor, mas também com dificuldades relacionadas ao território, à distância dos serviços públicos, à falta de transporte, à pobreza, à discriminação e à dificuldade de encontrar um atendimento que compreenda sua língua, sua cultura e sua forma de organização familiar e comunitária. Por isso, não podemos simplesmente aplicar às mulheres indígenas os mesmos caminhos pensados para as mulheres não indígenas. É necessário reconhecer que elas possuem uma realidade própria e que as políticas públicas precisam considerar essa especificidade.

Correio de Atibaia – Quais são as principais dificuldades para denunciar e buscar proteção?
Micheli – Uma das maiores dificuldades é o acesso. Muitas mulheres vivem em locais onde os serviços públicos estão distantes ou são insuficientes. Para registrar uma denúncia, procurar atendimento médico, assistência social, Conselho Tutelar, Delegacia ou outros órgãos, muitas vezes é necessário deslocar–se para a cidade. Além da distância, existe o medo. Algumas mulheres podem ter receio das consequências da denúncia para si, para seus filhos e para sua própria relação com a família e a comunidade. Há também o medo de não serem ouvidas ou de sofrerem novas situações de violência durante o processo. Outro problema é quando o atendimento acontece sem considerar a realidade indígena. Uma mulher pode chegar a um serviço público e encontrar profissionais que desconhecem sua língua, sua cultura, sua organização social e a realidade do território. Quando isso acontece, o atendimento pode acabar produzindo mais sofrimento em vez de oferecer proteção.

Correio de Atibaia – Qual é a relação entre território, pobreza, conflitos fundiários e violência?
Micheli – Não é possível falar sobre a violência contra as mulheres Kaiowá sem falar sobre o território. O território não representa apenas um lugar onde a comunidade está localizada. Ele está relacionado à identidade, à família, à espiritualidade, à memória, à alimentação e ao modo de viver Kaiowá. As situações de confinamento territorial, conflitos fundiários, insegurança, pobreza e falta de condições adequadas de moradia e alimentação produzem uma realidade de vulnerabilidade que atinge toda a comunidade, mas que pode atingir as mulheres de maneira particularmente grave. É preciso, portanto, compreender que a violência contra a mulher indígena não acontece isoladamente. Ela está inserida em uma realidade marcada por diferentes formas de violência: a violência dentro das relações familiares, mas também a violência estrutural, institucional e histórica contra os povos indígenas.

Correio de Atibaia – O que precisa mudar nas políticas públicas?
Micheli – Primeiramente, o Estado precisa ouvir as próprias mulheres indígenas. Não basta criar políticas para elas sem que elas participem da construção dessas políticas. É necessário ampliar e qualificar os serviços de saúde, assistência social, segurança pública e Justiça nas regiões onde vivem os povos indígenas. Os profissionais precisam receber formação para compreender as especificidades culturais e territoriais dos povos Kaiowá e Guarani, evitando preconceitos e julgamentos. Também é fundamental garantir atendimento humanizado, acesso à informação, transporte, acompanhamento psicológico e social e mecanismos de proteção que realmente funcionem. Quando uma mulher denuncia, ela precisa saber que não ficará sozinha depois da denúncia. As políticas públicas também precisam dialogar com as lideranças, mulheres indígenas, rezadores, famílias e organizações indígenas, respeitando as formas próprias de organização de cada comunidade. Inclusive, é fundamental oferecer orientações claras às lideranças, considerando que também precisam compreender os direitos das mulheres e os limites de sua atuação. Afinal, as lideranças são, em sua maioria, homens e, como qualquer pessoa, também podem reproduzir situações de violência ou, em alguns casos, serem os próprios violadores de direitos ou agressores. Interculturalidade não significa apenas levar o serviço público para dentro da comunidade; significa também transformar a maneira como esse serviço escuta, compreende e atende a população indígena.

Correio de Atibaia – O que a sociedade brasileira ainda não compreende?
Micheli – Acredito que uma das maiores dificuldades seja justamente compreender que a mulher Kaiowá não pode ser vista apenas como uma vítima. Ela é uma mulher que possui história, conhecimentos, responsabilidades, vínculos familiares, território, língua, espiritualidade e formas próprias de resistência. Também precisamos superar a visão de que os povos indígenas são grupos homogêneos ou que tudo aquilo que acontece dentro de uma comunidade pode ser explicado simplesmente pela “cultura indígena”. Essa visão é perigosa porque pode acabar naturalizando a violência. As mulheres Kaiowá enfrentam violências que estão relacionadas às relações de gênero, mas também às desigualdades sociais, ao racismo, à pobreza, à violência territorial e à ausência ou precariedade das políticas públicas. Por isso, proteger uma mulher Kaiowá significa muito mais do que garantir que ela consiga registrar uma ocorrência. Significa garantir condições para que ela possa viver com dignidade, segurança, autonomia e respeito dentro de seu território e de sua comunidade. E isso exige que o Estado e a sociedade brasileira deixem de falar sobre essas mulheres sem ouvi–las e passem a construir, junto com elas, os caminhos para enfrentar a violência.

Essa entrevista encerra (por ora) a série de entrevistas sobre Violência contra a Mulher, iniciada em agosto de 2026. Leia as demais matérias, registradas abaixo. O que Correio de Atibaia espera é que as mulheres sejam encorajadas a denunciar qualquer tipo de violência para extirparmos esse mal do nosso planeta.

A primeira reportagem da série está aqui:
Antes do feminicídio, existe uma história de violência que precisa ser interrompida
https://correiodeatibaia.com.br/2026/08/26/antes-do-feminicidio-existe-uma-historia-de-violencia-que-precisa-ser-interrompida/

A segunda matéria da série:
“A violência começa muito antes da agressão física”, diz Mariana Farcetta
https://correiodeatibaia.com.br/2026/08/27/a-violencia-comeca-muito-antes-da-agressao-fisica-diz-mariana-farcetta/

A terceira reportagem:
“O CRM é um espaço de informação. A mulher pode chegar mesmo na dúvida”, diz Gabriela Santos
https://correiodeatibaia.com.br/2026/08/28/o-crm-e-um-espaco-de-informacao-a-mulher-pode-chegar-mesmo-na-duvida-diz-gabriela-santos/

A quarta reportagem:
Vanessa Martins: depois da medida protetiva, começa outra etapa
https://correiodeatibaia.com.br/2026/08/30/vanessa-martins-depois-da-medida-protetiva-comeca-outra-etapa/

A quinta reportagem:
Silvana Cotrim: “a violência contra a mulher negra é específica”
https://correiodeatibaia.com.br/2026/08/31/silvana-cotrim-a-violencia-contra-a-mulher-negra-e-especifica/

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