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O desastre começa muito antes de acontecer

Jornalista e pesquisadora Tânia Pacheco defende que cidades precisam deixar de agir apenas depois das tragédias e colocar a prevenção no centro das decisões públicas

Osni Dias

Uma enchente pode durar algumas horas. Um deslizamento pode acontecer em poucos minutos. Uma onda de calor pode passar depois de alguns dias. Mas o risco quase nunca nasce naquele momento. Ele pode começar muito antes, na ocupação de uma área inadequada, na falta de drenagem, na retirada da vegetação, na impermeabilização do solo, na ausência de planejamento ou simplesmente na decisão de não fazer alguma coisa que deveria ter sido feita.

É esse o ponto central da conversa com Tânia Pacheco, jornalista, mestre em Educação e doutora em História Social, uma das referências brasileiras no debate sobre racismo ambiental e justiça climática. Desde 2009, Tânia atua à frente do blog Combate Racismo Ambiental e participa da coordenação do Mapa de Conflitos envolvendo Justiça Ambiental e Saúde no Brasil, ligado à Fiocruz. Seu trabalho reúne denúncia, informação e articulação em torno da justiça ambiental. Para ela, falar de clima sem falar de desigualdade é deixar uma parte essencial da história de fora.

A mesma temperatura, consequências diferentes
Uma onda de calor pode ser apenas um incômodo para quem tem condições de se proteger. Para uma pessoa idosa, de baixa renda, sem ar-condicionado ou com problemas de saúde, pode representar um risco muito maior. Tânia usa justamente o exemplo das ondas de calor na Europa para mostrar que nem mesmo países com melhores condições econômicas estão livres dessa desigualdade. Os idosos de menor poder aquisitivo estão entre os mais vulneráveis às temperaturas extremas.

Se isso acontece em países com maior infraestrutura, a situação das populações pobres em países como o Brasil merece ainda mais atenção. Por isso, para Tânia, qualquer discussão sobre mudança climática precisa começar pela justiça social. A pergunta deixa de ser apenas quanto vai chover ou quanto a temperatura vai subir. Ela passa a ser: quem estará protegido quando isso acontecer?

O que a Amazônia e o Rio Grande do Sul mostram
A seca dos rios da Amazônia e as enchentes que atingiram o Rio Grande do Sul mostram que o impacto de um evento extremo não é igual para todos. Para comunidades indígenas, ribeirinhas, quilombolas e tradicionais, a água, a terra e o clima estão diretamente ligados à sobrevivência. Para uma família de baixa renda atingida por uma enchente, perder a casa pode significar perder documentos, móveis, trabalho e tudo aquilo que levou anos para construir. O desastre pode durar um dia. A recuperação pode levar anos. É por isso que Tânia insiste na ideia de que não basta olhar para o momento em que a tragédia acontece.

Fortes chuvas que atingiram o RS provocaram estragos em ao menos 58 dos 497 municípios
Foto: Alexandre Pessoa – Publicado em 18/06/2025 – https://agenciabrasil.ebc.com.br/

O problema começa antes
“A questão, portanto, não é apenas o desastre quando ele acontece. É também aquilo que foi feito – ou deixou de ser feito – antes dele”, aponta a jornalista. Essa frase resume bem nossa série Atibaia e o Clima, porque ela aproxima as diferentes vozes que ouvimos até aqui.

Bruno Bainy falou sobre a necessidade de olhar para as projeções e não apenas para os registros do passado. Samantha Proença chamou atenção para a adaptação da cidade e para soluções baseadas na natureza. Carlão mostrou como a Defesa Civil trabalha para responder aos eventos extremos e reduzir riscos. Daniela Vianna mostrou que a mudança climática também é uma questão de saúde. Raquel Silva mostrou que os impactos não atingem todos da mesma forma. Tânia acrescenta uma pergunta que atravessa todas as anteriores: o que estamos fazendo antes que o desastre aconteça?

Prevenir também é decidir
Para Tânia, o Brasil já possui informações suficientes para identificar os municípios mais sujeitos aos efeitos das mudanças climáticas. Esses dados precisam chegar aos governos e entrar no planejamento. Não adianta descobrir uma área de risco depois que as casas foram atingidas. Não adianta retirar uma família de um lugar perigoso para colocá-la, alguns anos depois, em outro local que também apresenta risco. Se houver necessidade de deslocamento, a nova moradia precisa ser segura não apenas hoje, mas também no futuro.

E existe uma questão social que não pode ser esquecida. A família que vive em uma área de risco muitas vezes não escolheu aquela situação porque queria. O preço da terra, a falta de opções de moradia e a desigualdade empurram pessoas para lugares onde os riscos são maiores. Prevenir também significa oferecer alternativas, ou seja, garantir moradia digna. E planejar a cidade pensando em quem já está nela e em quem ainda vai chegar.

O papel de cada um
Tânia também coloca responsabilidade sobre os cidadãos. Se os governos têm acesso às informações e aos instrumentos de planejamento, a população precisa cobrar o uso deles. Os eleitores, afirma, precisam perguntar aos seus representantes quais são os planos para evitar que amanhã pessoas morram de sede, afogadas ou enfrentem perdas provocadas pela crise climática. É uma mudança importante na cultura política: em vez de esperar a próxima enchente para perguntar por que não havia drenagem, perguntar antes. Isso vale para situações mais delicadas. Em vez de esperar um deslizamento para procurar as famílias que vivem na encosta, identificar o risco enquanto ainda há tempo. E finalmente, em vez de reconstruir sempre no mesmo lugar, pensar se aquele lugar continuará sendo seguro daqui a dez, vinte ou trinta anos.

A prevenção não é tão visível quanto uma obra inaugurada ou uma resposta emergencial. Muitas vezes, seu resultado é justamente aquilo que não aconteceu: nenhuma casa caiu, ninguém precisou ser retirado de seu imóvel ou nenhuma família perdeu tudo…

Atibaia está preparada?
Depois de ouvir seis diferentes olhares, talvez a pergunta inicial da série tenha ficado mais difícil – e, ao mesmo tempo, mais clara. Atibaia possui Defesa Civil, áreas de risco identificadas, conhecimento científico, pesquisadores, organizações sociais, instrumentos de planejamento e uma população que começa a discutir o tema. Há, portanto, caminhos.

Mas estar preparado para a mudança climática não significa apenas ter equipes capazes de agir quando a água sobe. Significa também planejar a cidade antes da chuva, preparar a saúde antes da onda de calor, plantar árvores onde elas são mais necessárias, proteger córregos e áreas verdes, evitar novas ocupações em locais de risco, considerar as projeções climáticas nas obras que serão feitas hoje. E, por fim, garantir que aqueles que têm menos recursos não sejam justamente os primeiros a pagar a conta.

Uma pergunta importante não é se Atibaia está preparada para a mudança climática. Talvez seja outra: quanto estamos dispostos a fazer agora para que a cidade não precise aprender tudo isso depois de uma tragédia?

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